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  • Barbara Leite Liberato

Vamos Brincar?

As brincadeiras infantis são fundamentais para o adequado desenvolvimento físico, psicológico e social de crianças e adolescentes, sendo que a impossibilidade de vivenciar plenamente essa etapa lúdica do crescimento pode gerar graves consequências à vida adulta.


Talvez seja essa a frase que a criança mais diga no dia-a-dia. Uma frase simples, dita algumas vezes com euforia, outras vezes com timidez e às vezes até como um suplício (infelizmente). Fato é que, por trás desse pedido singelo, está uma poderosa estratégia para o desenvolvimento cognitivo e social dos pequenos, e também dos adolescentes. As brincadeiras mudam com as faixas-etárias, mas devem existir por toda a vida. A cada idade, existe o interesse em aspectos específicos. No início da vida prevalece a descoberta de cores, formatos e texturas. Mais tarde, a atenção se volta para jogos mais complexos que envolvem habilidades físicas, disciplina, imaginação e raciocínio lógico.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza que as crianças devem praticar pelo menos três horas diárias de atividades ao ar livre para que tenham um desenvolvimento saudável. O momento da brincadeira é uma oportunidade de desenvolvimento para a criança. Através do brincar ela aprende, experimenta o mundo, possibilidades, relações sociais, elabora sua autonomia de ação, organiza emoções. Através do jogo, a criança compreende o mundo à sua volta, aprende regras, testa habilidades físicas, como correr, pular, aprende a ganhar e perder.

O brincar desenvolve também a aprendizagem da linguagem e a habilidade motora. A brincadeira em grupo favorece alguns princípios como o compartilhar, a cooperação, a liderança, a competição, a obediência às regras. O jogo é uma forma da criança se expressar, já que é uma circunstância favorável para manifestar seus sentimentos e desprazeres. Assim, o brinquedo passa a ser a linguagem da criança.


De acordo com Vygotsky (1991), a brincadeira é entendida como atividade social da criança, cuja natureza e origem específicas são elementos essenciais para a construção de sua personalidade e compreensão da realidade na qual se insere. O brincar é uma forma de comunicação. É por meio das brincadeiras que as crianças desenvolvem atos do seu dia-a-dia, seja ela com dramatizações que imitam o mundo dos adultos, jogos, o faz de conta, com palavras, ou seja, não importa o tipo da brincadeira, a criança sempre vai está adquirindo habilidades criativas, sociais, intelectuais e físicas. Piaget (1998), diz que a atividade lúdica é o berço obrigatório das atividades intelectuais da criança.

A criança que brinca pode ser mais feliz, realizada, espontânea, alegre, comunicativa, entre outras características positivas que auxiliam no desenvolvimento infantil, podendo torná-la assim um ser mais humano, cooperativo e sociável. As brincadeiras alimentam o espírito imaginativo e exploratório. No “faz de conta”, a brincadeira passa a ser a verdade, no tempo e espaços devidos.

As brincadeiras infantis são fundamentais para o adequado desenvolvimento físico, psicológico e social de crianças e adolescentes, sendo que a impossibilidade de vivenciar plenamente essa etapa lúdica do crescimento pode gerar graves consequências à vida adulta. Inúmeras brincadeiras servem como representações e ensaios para a vivência em sociedade, visto que grande parte das habilidades humanas não são inatas, mas ensinadas e transmitidas de uma geração para a outra. Quanto mais se expande o tempo para o lúdico, maiores serão as chances de as crianças conquistarem o equilíbrio dinâmico nas relações pessoais. A brincadeira permitirá elaborar vínculos afetivos e sociais, devolvendo a criatividade e interesse pelo aprendizado.


Abaixo você confere alguns motivos listados na reportagem da Fernanda Heyge para Revista Crescer sobre a importância da brincadeira para as crianças. Confira:


1. COMBATE A OBESIDADE

É notória a importância do brincar para que a criança se movimente, desenvolva a motricidade e mantenha o peso regular, combatendo a obesidade e o sedentarismo. A brincadeira ao ar livre é fundamental para que a criança explore espaços maiores, mexa-se mais, experimente variações climáticas, tome sol (lembre-se sempre da proteção e dos horários adequados), entre outros benefícios. Meia hora de pega-pega, por exemplo, gasta em média 225 calorias e o mesmo tempo de amarelinha representa 135 calorias. “A convivência com a natureza reduz a obesidade, o déficit de atenção, a hiperatividade e melhora o desempenho escolar”, afirma Daniel Becker, do Instituto de Pediatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Além disso, ao ter contato com ela – seja em parques, praças ou praias –, seu filho cria uma conexão prazerosa com o meio ambiente e estabelece uma relação de respeito com todos os seres vivos.

2. PERMITE O AUTOCONHECIMENTO CORPORAL

Quando o bebê bate palmas ou a criança anda de bicicleta, estão experimentando o que o corpo é capaz. “Se você permite que seu filho corra, tropece, caia e levante de novo, ele aprende sozinho sobre suas possibilidades e limitações”, diz Luciane Motta, da Casa do Brincar (SP). Na brincadeira, o ser humano começa a ter consciência de si mesmo.


3. ESTIMULA O OTIMISMO, A COOPERAÇÃO E A NEGOCIAÇÃO

Por que o brincar tem tanto valor, a ponto de estar previsto na Declaração Universal dos Direitos da Criança, do Unicef? Porque seus benefícios transbordam em muito o aspecto físico. É como se fosse uma característica inerente ao ser humano, defende o psiquiatra Stuart Brown, fundador do The National Institute for Play, na Califórnia (EUA). “Trata-se de uma necessidade biológica básica que ajuda a moldar o cérebro. A vantagem mais óbvia é a intensidade de prazer, algo que energiza, anima e renova o senso natural de otimismo”, diz. Algumas habilidades essenciais, que serão requisitadas também no futuro, estão na brincadeira, como cita o estudo O Impacto do Desenvolvimento na Primeira Infância sobre a Aprendizagem, do Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância: “À medida que as brincadeiras se tornam mais complexas, o brincar oferece oportunidades para aprender em contextos de relações socioafetivas, onde são explorados aspectos como cooperação, autocontrole e negociação”.


4. GERA RESILIÊNCIA

Uma das habilidades emocionais mais valorizadas hoje em dia também é desenvolvida no ato de brincar: a resiliência. Quando a criança perde no jogo ou o amigo não quer brincar da maneira como ela sugeriu, entra em cena a capacidade de lidar com a frustração, de se adaptar e se desenvolver a partir disso. Com essas experiências, ela aprende a administrar suas decepções e a enfrentar as adversidades.

5. ENSINA A TER RESPEITO

Relacionar-se com o outro é mais uma capacidade vivenciada na brincadeira. Ao interagir com os amigos, irmãos ou pais, a criança aprende a respeitar, ouvir e entender os outros e suas diferenças. Para isso, é essencial que ela possa brincar livremente, sem condições impostas por gênero. “O adulto que brincou bastante na infância é alguém aberto a mudanças, tem pensamentos mais divergentes e aceita a diferença com maior facilidade. No entanto, se uma menina só pode brincar de casinha e o menino, de carrinho, a brincadeira pode impactar para o mal”, lembra Gisela Wajskop, doutora em Educação e colunista da CRESCER.


6. DESENVOLVE A ATENÇÃO E O AUTOCONTROLE Seja para montar um quebra-cabeça, equilibrar-se em um pé só ou empilhar uma torre com blocos, essas habilidades serão aperfeiçoadas a cada brincadeira. Sem contar que serão empregadas desde muito cedo na vida do seu filho, seja na hora de fazer uma prova ou de resolver um conflito.


7. ACABA COM O TÉDIO E A TRISTEZA

Brincar ajuda a manter em ordem a saúde emocional – e as próprias crianças percebem esse benefício. Em um estudo realizado pela Universidade de Montreal, no Canadá, 25 meninos e meninas de 7 a 11 anos fotografaram e falaram de suas brincadeiras favoritas. Para eles, brincar é uma oportunidade de experimentar felicidade, combater o tédio, a tristeza, o medo e a solidão. “Quando pais, médicos e autoridades focam somente no aspecto físico da brincadeira, deixam de lado pontos benéficos para a saúde emocional e social”, afirma a autora Katherine Frohlic.


8. INCENTIVA O TRABALHO EM EQUIPE

Nos jogos coletivos, como o futebol e a queimada, a capacidade de se relacionar com os demais também exige que a criança pense e aja enquanto parte integrante de um grupo. Em um mundo como o que vivemos, cada vez mais conectado, essa habilidade se faz ainda mais importante. Trabalha-se cada vez mais com projetos (desde a educação nas escolas até as grandes empresas), nos quais tudo parte de um interesse coletivo e todas as etapas são desenvolvidas em conjunto – por isso, aprender a defender um time hoje pode ter grande impacto lá na frente.


9. INSTIGA O RACIOCÍNIO ESTRATÉGICO

Jogos de regra, como os de tabuleiro, põem as crianças em situações de impasse. Para solucioná-los, elas precisam raciocinar de maneira estratégica, argumentar, esperar, tomar decisões e, então, analisar os resultados. Ao solucionar problemas, elas vão tentar, errar e aprender com tudo isso – para que, na próxima rodada, possam fazer melhor, com mais repertório.


10. PROMOVE CRIATIVIDADE E IMAGINAÇÃO

Ao ler uma história, brincar de boneca ou construir um brinquedo com sucata, a criança desenvolve a imaginação. E, para isso, não precisa de muito: potes, galhos e panelas podem dar vida a tanta coisa! Foi o que mostrou uma pesquisa da RMIT University, de Melbourne, na Austrália, feita com 120 crianças de 5 a 12 anos. A conclusão é que itens como caixas e baldes incentivam mais a imaginação do que brinquedos caros. Isso porque esses materiais não induzem a uma ideia pronta.


11. ESTABELECE REGRAS E LIMITES

Brincando, a criança reconhece e respeita os limites do espaço, do outro e de si mesma. E passa a lidar com regras, aprendendo a segui-las. Se tiver abertura, ela poderá até questioná-las. Isso será fundamental para conviver em sociedade – quando se faz necessário seguir certas convenções, mas também tentar mudar o cenário para melhor, se possível.


Referências Bibliograficas:

1. https://revistacrescer.globo.com/Brincar-e-preciso/noticia/2015/03/importancia-do-brincar-11-motivos-para-seu-filho-se-divertir-muito.html

2. Sociedade Brasileira de Pediatria - https://www.sbp.com.br/

3. https://www.infoescola.com/


Fotos: https://www.dentrodahistoria.com.br/blog/educacao/o-que-e-protagonismo-infantil/

https://diadeaprenderbrincando.org.br/2017/04/19/fotografo-jamaicano-registra-criancas-brincando-no-quintal-e-chama-atencao-pela-sensibilidade-das-imagens/

https://www.exitorio.com.br/ntc,4048,nao-existe-nada-mais-serio-que-uma-crianca-brincando.html



Sobre a autora:

Olá, é um prazer conhecer vocês que frequentam esse blog! Um lugar de escuta, de fala e principalmente de compartilhamento. Vejo aqui um espaço em que poderemos compartilhar muito mais do que os desafios das relações entre pais e filhos, mas principalmente as experiências e as motivações que encontramos no dia a dia de cada família. Sou médica, pediatra, e espero enriquecer esse espaço através de orientações e discussões norteadas pelo conhecimento médico.


Dra. Raquel Carvalho Leite

Médica formada na Universidade Federal de Minas Gerais. Pediatra pelo programa de Residência Médica do Hospital das Clínicas da UFMG. Titulada em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Especialização em Terapia Intensiva Pediátrica e Neonatal pelo Neocenter e Titulada em Terapia Intensiva Pediátrica pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira.

@quelcleite

e-mail rcl134@yahoo.com.br


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