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  • Barbara Leite Liberato

Rigidez cognitiva à viagens

Crianças no geral não chegam de fábrica com muita flexibilidade. No entanto, a rigidez cognitiva é ainda mais difícil nas crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista). Rotina, combinados, diálogos antecipando os desafios ajudam nesse processo. Mas quando as situações fogem do nosso controle e os imprevistos acontecem, é preciso jogo de cintura, paciência, acolhimento e técnicas de visão mental para conduzir com equilíbrio emocional as crianças. Todas elas.



A flexibilidade cognitiva é a capacidade do cérebro para adaptar sua conduta e opiniões a acontecimentos novos, variáveis e inesperados. Crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista) apresentam prejuízos em diversos domínios cognitivos. Hoje gostaria de falar sobre as Funções Executivas. Dentre os componentes centrais das funções executivas está a flexibilidade cognitiva. Muitas das habilidades cognitivas relacionadas às funções executivas encontram-se bastante comprometidas nas crianças com espectro autista.


Mariane sempre apresentou rigidez cognitiva para várias coisas e viajar é uma delas. Foi um longo processo de acompanhamento psicológico para conseguirmos compreender parte do que se passava com ela. Pois nossos filhos são muito complexos e um diagnóstico de autismo por si só não nos faz entende-los. Sem contar que eles vão crescendo e mudando em suas características. Eles precisam de mais apoio de nós, os pais.


Os quadros de rotina, os mapas mentais com desenhos detalhados de onde iríamos, as incansáveis conversar e explicações sobre a viagem e o local em questão, o estudo com vídeos demonstrando para aonde iríamos viajar, as rotinas detalhadas do que faríamos durante a viagem, músicas, jogos e brinquedos para relaxar... nada, nada disso foi suficiente para que conseguíssemos fazer uma simples viagem de poucas horas.


Uma simples e pequena (para nós) mudança nos combinados, uma parada a mais para ir ao banheiro, um mínimo atraso, um trecho esburacado não previsto, um vídeo baixado que não rodou, o irmão que não se comportou como ela gostaria, algum brinquedo esquecido... ou anoitecer (que foi o que ocorreu na primeira tentativa, esquecemos do detalhe de explicar que iria anoitecer na chegada). Quaisquer dessas coisas já servia para lhe desregular durante toda a viagem.


O pensamento rígido leva à ansiedade. E a ansiedade causada por esse tipo de pensamento rígido e inflexível pode causar muitos desafios comportamentais em crianças com TEA e sem TEA também. Quando o mundo não corre exatamente da maneira que eles esperam, podem se desorganizar. Também conduz a comportamentos desafiadores como a resistência à mudanças, tentativas de controlar todas as situações, resistência em seguir a liderança de outras pessoas.


Magda Gomes Dias, em seu livro Crianças Felizes, destaca a importância de saber falar com nossos filhos e o valor que se tem em falar a verdade. Neste contexto também concordo que não existe meio termo e quando tomamos a consciência da urgência de se educar para a felicidade, falar a verdade é o ponto de partida, pois demonstra a noção de respeito mútuo. Ouvir a verdade é um direito da criança. E cabe a nós, pais, estarmos ao seu lado com docilidade e firmeza lhes apoiando no que for necessário para melhor entenderem a situação.


O que nós fizemos? Oramos e pedimos a Deus muita paciência e sabedoria para lidar com tudo isso. Pois só quem já esteve com uma criança com necessidades especiais chorando e em crise de ansiedade, que deságua em várias outras crises, horas e dias em uma viagem sabe do que estou tentando falar.


Tivemos acompanhamento psicológico focado nessa dificuldade. Mariane pediu para ir dormindo... que queria só dormir a viagem inteira e só acordar lá. Explicamos sobre cochilos e que é legal e que se ela quisesse dormir tudo bem. Estudamos e entendemos o que poderíamos fazer. Começamos do zero e fizemos tudo de novo: rotina, mapa mental, explicações sobre imprevistos, conversas e mais conversas sobre os caminhos, vídeos dos locais, fotos dos caminhos.


Também proporcionamos a ela o que poderia lhe deixar mais confortável na viagem: almofadas, tapa olho, tampão de ouvido, máscara, pois ela não sai sem a mantinha que ela tanto gosta. Ambiente com sons baixos como ela gosta, lanches de sua preferência e tudo mais que já sabemos de cor em viagens com crianças pequenas. Não foi fácil, ela teve inúmeras dificuldades, ficou nervosa, ansiosa, porém ao final conseguiu chegar. Foi tão lindo quando o pai anunciou que chegamos na entrada da cidade e vê-la tirar o tapa-olho, tapa-ouvido e falar em voz alta e aliviada que tinha conseguido vencer essa batalha. Com os olhos marejados todos nós nos parabenizamos.


Nossa batalha de pais e mães de crianças especiais não é fácil, mas não podemos desistir! Eles tem a nós! Sejamos fortes. Deus nos abençoe. Um forte abraço.



"Não são apenas as crianças com TEA que possuem uma rigidez cognitiva. A flexibilidade é uma habilidade que precisa ser desenvolvida no cérebro da criança. A depender da personalidade e do temperamento dela vai ser mais leve esse processo. Falar a verdade, cumprir combinados e antecipar os aconteciemntos é ter respeito pela criança. No entanto, imprevistos acontecem, algumas coisas fogem do nosso controle. É importante saber flexibilizar e ensinar isso para as crianças desde pequenas".


Bárbara Leite LIberato





Sugestão de Leitura:





Livro: Crianças Felizes

Autora: Magda Gomes Dias



Sobre a autora:


Karuane Araújo é mãe da Mariane 7 anos autista verbal e do Miguel de Maria 2 anos, de temperamento forte, esposa do Bruno Araújo, aplicadora da Disciplina Positiva e da Parentalidade Positivas na educação das crianças.


Karuane Araújo

Chefe da Divisão de Cursos de Pós-Graduação - PROPGI/UEMASUL

Engenheira de alimentos - Mestre em Ciências da Saúde - Doutoranda em Ciência AnimalTel: 099 991081406 CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/1115832947713877

@karuanearaujo

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