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  • Barbara Leite Liberato

Paternidade Positiva


Em agosto muitas datas importantes são celebradas. A Igreja Católica dedica uma semana deste mês para celebrar a família na "Semana Nacional da Família" , o comércio comemora o "Dia dos Pais" e a Sociedade Brasileira de Pediatria dedica o mês de agosto para conscientização da importância do aleitamento materno através do "Agosto Dourado". Pensando nisso, o Cheiro de Mãe convidou Marlon Camacho, Pai de dois meninos e Educador Parental para uma conversa muito afetuosa sobre a Paternidade Positiva. Afinal de contas, seja na família, na paternidade ou na amamentação, a figura masculina tem um papel salutar a ser desempenhado. E poder dialogar sobre paternidade positiva dentro desses três contextos é muito importante para entender aonde queremos chegar enquanto sociedade, respaldados numa educação respeitosa, acolhedora e segura em que pais e mães consigam caminhar lado a lado.



Marlon Camacho


Pai do Joaquim de 7 anos, do Antônio de 1 ano e 6 meses e idealizador do programa CRIANÇA DO FUTURO.

É também formado em Engenharia da Computação, porém a vida o formou em uma nova área e que é a sua verdadeira paixão, SER PAI. 


É Educador Parental, com formação pela PDA (USA), certificado em Disciplina Positiva, com foco na primeira infância, e oferece conteúdo, através das redes sociais a outros pais, mães e educadores para criarem uma melhor relação com suas crianças.



Cheiro de Mãe: Qual o seu olhar sobre a educação tradicional, recebida e perpetuada pela maioria das famílias, frente ao modelo de educação positiva?

Marlon Camacho: A Educação Tradicional teve seu espaço e seu lugar durante muitos anos sendo a melhor manifestação de amor que se sabia na época. Ela gerou seus benefícios e traumas/dificuldades. Para uma sociedade mais hierarquizada, cheia de controle, ela produziria resultados aceitáveis. Mas para a nossa realidade de hoje, e pelos dias que temos pela frente, além dela não funcionar mais, ela não prepara nossos filhos para um futuro emocionalmente saudável. Não traz habilidades que hoje são exigidas na atualidade e no mercado de trabalho. Um bom funcionário há 20, 30 anos era aquele que obedecia e seguia à risca a ordem do patrão. Hoje é valorizado a criatividade, ideias e iniciativa.


Cheiro de Mãe: No seio familiar, geralmente, o pai é visto como autoridade máxima e isso se torna visível através de algumas frases como: “Eu vou contar para o seu pai”. Como substituir o olhar do "Pai Xerife", pelo olhar do "Pai Acolhedor"? Como criar esse laço de amizade com as crianças sem perder a autoridade paterna? Como fazer com que os filhos entendam a importância do que está sendo pedido ao invés de simplesmente obedecerem pelo medo do pai, da punição?

Marlon Camacho: Tanto a maternidade como a paternidade estão vivendo um processo de se remodelar. A nossa geração de pais é a primeira geração em grande escala que está sendo meio que forçada a rever seus papéis e funções. Na educação tradicional era muito bem estabelecido o que mãe fazia e o que pai fazia. Mãe era uma referência do dia-a-dia e o pai uma referência mais distante. Essas duas funções hoje já não faz muito sentido.


Eu entendo que falar de uma paternidade acolhedora envolve novas funções paternas. É uma questão de entender que estamos caminhando ao encontro de uma Parentalidade em que temos dois adultos ou mais que compartilham as responsabilidades com a criança. Hoje o convite aos homens é que se faça tudo que for necessário para cuidar de seus filhos. Se o cuidar sempre foi uma habilidade vista como uma habilidade feminina, o convite é que os homens podem e conseguem cuidar porque é uma habilidade que se aprende.

Então quando eu começo a cuida da criança, isso me faz sair desse lugar distante de referência para um lugar mais compartilhado e de aprendizado.


Cheiro de Mãe: A sociedade em que vivemos tem um olhar diferenciado para pais que optam por viver a paternidade de forma positiva, com afeto e consciência. Geralmente, tem-se um olhar de preconceito e fraqueza, chegando até mesmo a questionar a masculinidade desses pais. Por outro lado, nunca se falou tanto em desenvolvimento cerebral, estudar para ser pai e mãe, a relação de pais e filhos pautados em afeto e respeito mútuo. Como você enxerga e analisa esse movimento social? O que tem a dizer sobre isso?

Marlon Camacho: Esse caminho é muito difícil porque isso está totalmente ligado aquilo que a gente acredita que é ser homem. De acordo com o documentário “O Silêncio dos Homens”, ser homem está totalmente ligado a ter sucesso profissional (86%); a não ter característica/comportamentos ou funções femininas (78%), ser fisicamente forte (73%), ser responsável pelo sustento da família (66%) e não expressar emoções (60%). Como a definição do masculino determina muito esse papel do Pai como o xerife, distante e não acolhedor. Ser homem é não poder cuidar, porque o cuidar é um atributo, uma habilidade feminina.

Quando eu comecei a cuidar do meu filho dos 6 meses aos 3 anos e meio eu vivi um conflito existencial. Por mais que eu pensava que as coisas mudaram, quando eu fui fazer na prática, eu pensava: isso tá errado, eu nasci para isso, não sei fazer isso, essa relação não está certa.

Para um homem assumir esse papel é como se ele não estivesse sendo homem. Ser homem é dar um apoio para a mãe, mas não assumir esse papel de cuidador. Eu quero ficar em casa e cuidar do meu filho, como a sociedade olha para isso?

Embora as dores do homem sejam diferentes das dores da mulher.... uma dor não anula a outra. Para o homem entender que tem que lidar com suas dores: chorar, lidar com a sua agressividade, com a sua raiva, expressar sonhos, lidar com fragilidades é muito difícil. A paternidade convida a isso, a lidar com fragilidades no dia a dia. Isso tudo é educação respeitosa. Lidar com autoconhecimento, autocuidado;

A educação positiva me convida a cuidar de mim. Para eu cuidar de mim eu tenho que acessar emoções. É o básico, mas é totalmente o contrário que a minha geração de homens ouviu ao longo da vida sobre o que é ser homem. A gente cresceu em uma sociedade que ainda focou no você tem que saber de tudo, você tem que ser forte, você não pode chorar senão você é gay, você tem que ser bom; a tal ponto que gerou a Síndrome da Gasolina: O homem tá perdido na cidade, mas ele não para no Posto de Gasolina para pedir informação. Ele roda sozinho até se encontrar.

A gente vem para essa nova paternidade, a gente não sabe ser esse pai afetuoso. Se eu não for atrás de conhecimento eu não vou conseguir ser esse pai acolhedor. Eu vou continuar sendo distante e rígido.


Todo esse desafio é: Uma nova paternidade é olhar para uma nova masculinidade. Aproximar a masculinidade mais do que ser homem, mas ser gente. Quando eu olho para ser gente eu percebo que somos diferentes (homens e mulheres), mas existe muitas igualdades. Somos iguais nas responsabilidades de educadores dos nossos filhos. E isso coloca em Xeque o que é ser homem. Porque na educação tradicional ser homem sempre significou ser o cabeça, o superior, a palavra final, ser a voz pensante, aquele que não sente medo.

Cheiro de Mãe: Ao adentrar no mundo da paternidade, os pais vão buscar na sua criança o modelo de pai que tiveram na infância e, normalmente, encontram grandes dificuldades, seja por terem sido exigidos demais ou de menos. Por sua vez, ou repetem o padrão com seus filhos ou o executam de forma totalmente avessa a educação que receberam de seus pais, tudo isso em busca de ser o Pai Perfeito para seus filhos. O que seria ser um bom pai para você?

Marlon Camacho: Quero destacar o ponto de buscar o modelo de pai na infância: muitos homens tem um agravante na paternidade que é a ausência paterna, negligência paterna ou uma relação abusiva com o paterno. A grande ou boa parte da nossa sociedade tem uma referência com o masculino negativa e isso influencia diretamente na educação hoje porque o pai que teve um pai ausente na infância fala assim: "Eu vou ser um pai diferente. Eu sei o quanto isso me marcou e me feriu. Então eu vou fazer diferente. Vou ser amigo do meu filho, vou abraçar, vou brincar, vou ser um pai diferente". Então isso gera também um pai apreensivo, que deixa o filho ser o centro da vida, ele entende que ser bom pai é realizar todas as vontades da criança até que ele perde o controle, explode e volta a ser aquele modelo de agressividade e punição. E fica numa gangorra. E muitos outros pais, homens que tiveram a referência de pais rígidos, punitivos, agressivo, que gritava, que colocava ordem traz para educação o seguinte: ser pai é ser obedecido.


Eu lembro claramente o quanto a desobediência do meu filho mais velho me feria, quando eu usava a punição como ferramenta de educação. Ia lá no ego, na alma. Porque de certa forma, ser enfrentado, ser desobedecido para o masculino é muito mais significativo do que para o feminino. Isso mexe com orgulho masculino. O não conseguir controlar os filhos é como se a gente fosse um homem frouxo. Isso é a pior coisa para um homem.

Se eu tenho uma referência de pai presente que com apenas um olhar já punia ou já cobrava a obediência, hoje eu tenho um filho que vira na frente de todo mundo e me diz que eu sou um bobão. Isso é muito mais do que um desrespeito, é a minha construção sobre o que é ser pai. Hoje ser um bom pai não é aquele que busca ser respeitado, é aquele que compreende a necessidade da criança, as fases de desenvolvimento da criança e consegue respeitar isso de tal forma que consegue não punir e ao mesmo tempo ensinar. Então a necessidade de respeito deixa de ser a única necessidade dessa relação, porque quando eu busco o respeito muito provavelmente eu vou buscar o medo para conquistar esse respeito que era o que a educação tradicional fazia. Agora quando eu entendo que a minha função como pai não é apenas ser respeitado, mas é ensinar, inspirar e conduzir... eu entendo que o amor é melhor do que o medo. Esse amor transforma, mas às vezes esse amor também me faz passar vergonha.



Cheiro de Mãe: Algumas mulheres simplesmente não permitem que seus companheiros participem da rotina dos filhos, principalmente nos primeiros anos de vida da criança. Costumam dizer: “Deixa que eu faço”, “Você não sabe”! Por outro lado, também não ensinam e não estimulam a participação da figura paterna. Uma hora acreditam que são incapazes e em outro momento estão a cobrar maior participação. Você acredita que as mulheres são, em parte, responsáveis pelos homens não ocuparem esse lugar de cuidadores das crianças? O que fazer para desconstruir essa prática?

Marlon Camacho: Responsáveis não. Mas contribuem. A responsabilidade pela ausência paterna é do homem. Tanto a sociedade alimenta isso, como a relação da mulher mesmo com o seu maternar contribui para essa ausência. Tanto no ambiente público, como no ambiente íntimo, familiar é a mesma construção. É destaque a sobrecarga da mulher em qualquer mídia, mas em contrapartida, no espaço público não tem muito espaço para os homens enquanto pais. Os trocadores, por exemplo, na sua maioria estão nos banheiros femininos. As empresas não aceitam os pais emendarem as férias na licença paternidade. Eventos que envolve educação, famílias e saúde, por exemplo que não abrem muito espaço para os homens palestrarem.


Numa visão macro, a sociedade não está preparada para a paternidade. Eu reclamo da ausência paterna, mas ao mesmo tempo eu não contribuo enquanto sociedade para essa inclusão. Essa mesma dificuldade no público existe no privado. Assim como o homem se sente dono do espaço público, o espaço privado e íntimo pertence à mulher.

Da mesma forma que temos que ter uma conscientização de abrir esse espaço público para as mulheres, para uma igualdade de gênero, melhores salários, políticas femininas, cargos importantes nas empresas ocupados por mulheres. É uma pauta importante também a presença masculina no ambiente íntimo. Existe esse tripé: Cobrança, Controle e Expectativas. Espera-se que o pai note que a mãe esteja sobrecarregada, espera que ele resolva as coisas, mas quando ele faz o que se tem é uma correção. A criança começa a chorar e a mãe diz: “ Me dá ele aqui que ele só se acalma comigo”. “Sair com o pai é desse jeito – a roupa toda atrapalhada”. Isso vem do fato de que a mulher tem que dar conta disso, caso contrário ela estará perdendo esse lugar que é dela.


Para desconstruir essa prática, eu acredito que é necessário trazer a educação respeitosa para o ambiente íntimo. Então no ambiente íntimo, não funciona protesto, não funciona reclamação, não funciona cobrança e não funciona correção. Se eu acredito que isso não funciona com as crianças porque eu acredito que isso funcionaria numa relação afetiva com meu companheiro? Denúncias funcionam no ambiente público, mas no ambiente íntimo só cria resistência do outro lado. A solução seria o diálogo.

Conversar sobre, fazer listas de tarefas juntos. Porque a mãe fica pensando: ele deveria fazer isso, isso e isso. O pai fica pensando: ela deveria fazer isso, isso e isso. O que gera cobrança e defesa. A gente trouxe o tom bélico, de disputa da sociedade para a ambiente íntimo e isto está destruindo os relacionamentos. As mulheres se sentem sobrecarregadas e incompreendidas. E os homens se sentem acuados, incompreendidos e culpados. Pais que são para os filhos 300 % melhores do que seus pais foram para eles, mas que para a sua relação íntima ele não está fazendo nada. É preciso entender que essa mudança é um processo. Nessa geração, a carga da mulher, infelizmente vai ser maior, mas a forma como eu educo os meus filhos faz toda a diferença, a próxima geração vai causar profundas transformações no futuro. Meu filho vai ter muito menos crises do que eu na minha masculinidade.


Cheiro de Mãe: A mãe carrega o bebê na barriga por nove meses, sente as dores do parto e amamenta o bebê, há quem diga que só por isso elas possuem uma conexão especial com a criança. Você acredita que exista extinto paternal? Como se dá o desenvolvimento dessa conexão do pai com a criança?

Marlon Camacho: Diferente da maioria das mulheres, nós os homens não temos muita conexão na gestação. Isso tem mudado aos poucos porque na gestação, parto e puerpério está tendo uma inclusão paterna no processo. E isso é fundamental para a criação do vínculo. Eu fui distante, irresponsável, imprudente na gestação do meu primeiro filho. Eu não estava bem, ser pai não era, naquele momento, um sonho. Eu não entendia nada disso. A saúde feminina sempre foi algo muito velado. Menstruação, por exemplo, é um assunto que não se falava para homens. O homem não conhece o corpo feminino e nem o funcionamento dele. É um assunto proibido. “Em bolsa de mulher não se mexe porque você vai ver lá dentro um absorvente”. “O menino não pode saber que a menina está menstruada”. Por que é assim? Se é algo natural e saudável. Está ligado ao processo de fecundação que é algo tão lindo. Então a gestação, parto e puerpério sempre foi um assunto totalmente feminino.

A Lei do Acompanhante é muito recente (Lei 11.108/2005) – Da à gestante o direito a acompanhante durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto. A Lei determina que este acompanhante será indicado pela gestante, podendo ser o pai do bebê, o parceiro atual, a mãe, um(a) amigo(a), ou outra pessoa de sua escolha. Mas ela demorou muito a ser implementada nos hospitais públicos.


O sistema de Saúde como um todo não vê o homem como alguém que também está gestando. Ele está nascendo como pai e entrando em um universo novo. A gestação então é algo distante para o homem até porque ele não entende o que se passa com a mulher. E se eu não entendo e estou distante eu não consigo ser empático. Nesse contexto acaba sobrando para o homem a parte chata.

Para se criar o vínculo então é preciso ampliar esse contexto. Quanto maior o envolvimento do homem no pré-natal, a participação ativa do pai no parto, mais eu provoco isso. Se eu tenho de um lado em grande escala homens que relatam que não conseguiram se conectar na gestação, de outro lado também em grande escala está presente relatos de homens que dizem que o momento do parto foi marcante em suas vidas. Uma cena indescritível. A potência do parto é algo fantástico inclusive para os homens desenvolverem um novo olhar para o feminino, sobre como o feminino é potente, como a vida é fantástica. É um renascer. Não são todos os homens que sentem isso, mas muitos sentem.


Nos primeiros 6 meses se não há abertura da mãe para o cuidar paterno, os homens tendem a se desconectar. Porque nada é mais poderoso que o cuidado. É ele vai trazer essa conexão com o bebê com a figura masculina. Acolher o choro, o pele a pele, acordar de madrugada, participar da amamentação, da introdução alimentar, dedicar tempo de qualidade com esse bebê e essa criança.

Não se cogitava o fato de haver mudanças biológicas no corpo do pai com a gestação. O documentário “Os bebês incríveis” traz várias pesquisas e uma delas é que há uma variação da produção de ocitocina no homem. O corpo masculino se prepara para o vínculo e o afeto. Isso é libertador: dizer para o homem que ele foi feito para o cuidar. Nesse sentido não é um extinto paternal, mas uma preparação biológica para gerar esse vínculo e esse afeto com o bebê.



Cheiro de Mãe: Uma das maiores dificuldades que os pais enfrentam quando se trata da chegada dos filhos é em relação a Licença Paternidade – que no Brasil é garantido pela Constituição Federal aos pais após o nascimento da criança. Ela é de 5 dias úteis podendo ser prorrogada por 15 dias e no caso de a empresa ser cadastrada no programa Empresa Cidadã, o prazo é estendido para 20 dias. O pouco tempo de licença dificulta a participação dos pais como cuidador e acaba colocando os homens em um papel coadjuvante em casa junto ao bebê e a mãe. Qual a importância da Licença Paternidade para a relação parental? Como usufruir bem esse pouco tempo?

Marlon Camacho: A licença paternidade é um retrato da mentalidade masculina de que o homem não faz parte disso, desse universo – gestação, parto e puerpério. É preciso entender e valorizar a presença do pai dentro desse contexto. Uma pesquisa da USP em São Paulo trouxe os seguintes dados: 98 % das mães que tiveram apoio paterno durante o aleitamento conseguiram amamentar seus bebês pelo menos até os 6 meses. E apenas 27% das mulheres sem o apoio dos pais conseguiram a mesma conquista.

Uma empresa multinacional de bebidas alcóolicas (DIAGEO) concedeu 4 meses de licença paternidade para seus funcionários – do baixo ao alto escalão – em todas as suas filiais pelo mundo e divulgou que após essa prática houve um aumento na produtividade da empresa. Ou seja, não é prejuízo. É uma questão de adaptação que está relacionado com a satisfação do funcionário que agora é pai também. Como já foi falado anteriormente, a participação do pai no processo do cuidar é fundamental para a criação do vínculo e da conexão com a criança, além de ser um suporte para a mãe e para os outros filhos. Como passar uma noite em claro e cumprir um dia de jornada de trabalho? A conta não fecha. O homem também está se adaptando a esse novo universo da paternidade.


Cheiro de Mãe: Qual a sua maior dificuldade na hora de educar os seus filhos? Na sua trajetória dentro da Disciplina Positiva, o que foi para você um desafio de comportamento? Fale um pouquinho sobre isso. Qual a sensação de poder solucionar os conflitos de forma respeitosa?

Marlon Camacho: A agressividade foi sem dúvida o meu maior desafio. Como não ser agressivo quando o meu filho é? E a sensação de poder solucionar os conflitos de forma respeitosa é fantástica. Entre os benefícios que a Educação Positiva trouxe está: reconhecer meus limites, lidar com a minha raiva, com o meu descontrole emocional. Me fez aprender que diante da agressividade da criança, o melhor é não fazer nada.


Cheiro de Mãe: O que se ganha quando se está disposto a educar um filho? É possível quebrar paredes dentro de si mesmo (paredes culturais, de sentimentos, de perpetuação de discursos sociais) a partir de uma troca com a sua criança?

Marlon Camacho: A gente ganha vida. As habilidades que a paternidade traz para a vida da gente não se aprende em escola nenhuma. Em oito anos exercendo a paternidade eu aprendi mais que em oitenta anos, estudando sentado numa cadeira de sala de aula. Habilidade de liderança, resolução de conflitos, paciência. A paternidade, por exemplo, me ensinou a ser afetuoso. É interessante como a paternidade acrescenta inclusive profissionalmente. Pais e mães se tornam melhores profissionais. Desenvolvem um olhar acolhedor. Aprendem a ser gente!


Cheiro de Mãe: Ser pai e mãe é uma construção diária em que vamos, a cada dia, fazendo alicerce e assentando tijolos na relação com nossos filhos. Somos pais diferentes para cada filho que temos. Você concorda? Como fica a CULPA dentro deste contexto? Como ser um bom pai para cada filho sem ser o mesmo pai para eles?

Marlon Camacho: Particularmente, eu estou procurando resignificar a culpa. Entendê-la não como algo que eu não possa sentir. Mas estar mais consciente com a minhas emoções. Deixar de ver a culpa como algo negativo que não é permitido sentir. Ela tem o mito de que só vai embora se você ficar mal. Que ela te paralisa. Mas na verdade ela é um indicativo de que eu tenho uma necessidade que não está sendo atendida. E dentro da paternidade ela pode se tornar um propulsor de transformações - a medida que eu entendo que se eu me sentir culpado é porque eu fiz algo que não atendeu as minhas necessidades de pai. Eu, por exemplo, tenho uma necessidade básica de oferecer o melhor para o meu filho e quando eu me sinto culpado eu sei que eu não ofereci o melhor. Então ao invés de não sentir culpa, penso que está tudo bem esse sentimento me visitar porque a culpa é um indicativo de que eu preciso ou recomeçar ou estudar mais. Então eu estou fazendo as pazes com a culpa. Ninguém consegue estar inteiro o tempo inteiro e essa culpa pode ser boa. Imagina um mundo sem culpa! Quantas atrocidades a gente faria! Da mesma forma o medo! A paternidade é um convite para a gente lidar com a culpa de forma saudável.

Nesse processo de fazer as pazes com a culpa eu sigo em paz com essa diferença de ser um pai diferente para cada filho. Porque não é sobre perfeição! Eu só existo como pai do meu segundo filho desse jeitinho que eu sou, porque eu fui antes o pai do meu primeiro filho.


Cheiro de Mãe: Você acredita que essa nova geração de pais tem procurado uma relação com mais significado com suas crianças?

Marlon Camacho: A procura tem aumentado. Eu percebo uma ansiedade feminina em achar que mandando os maridos para as lives, os workshops e palestras eles vão se transformar da água para o vinho. Não que não seja um caminho, mas não é bem assim que funciona. A transformação é mais um percurso individual e próprio. Os homens no geral não sabem lidar com a relação de afeto com o filho. Mas ao mesmo tempo, o impacto com o homem é muito transformador. É aquela sensação de ser analfabeto e escrever pela primeira vez.


Cheiro de Mãe: Quando falamos em Educação Parental, Disciplina Positiva e Parentalidade Positiva; os homens costumam ser resistentes. De fato, olhar para dentro de si, desconstruir algo que existe dentro de si mesmo para então construir uma nova perspectiva não é uma tarefa simples e nem fácil. Que conselho você daria para esses pais?

Marlon Camacho: Eu diria assim: "Cara, eu te entendo. Plenamente e Perfeitamente. E se você já tiver entendido que abraço é uma demonstração de respeito, amor e afeto. Eu te ofereceria agora o meu abraço. Porque abraço é coisa de homem!"

Ser pai é um processo cobrado, mas nem sempre valorizado. E não é fácil, mas é possível. Se agarre nessas palavras: é um processo! É uma mudança: se abrir, se permitir, ouvir e aprender. É cada dia quebrar um pouquinho a casca. Não se quebra a casca de uma vez senão a gente perde todas as nossas referências. Cada um tem a sua jornada, e essa jornada é a mais incrível e extraordinária. Olho para trás e diz “ainda bem” que eu me permiti olhar para dentro de mim e usei a paternidade como uma força propulsora de transformações internas.



Sobre a autora:

Bárbara Leite Liberato é casada com Fernando Liberato, mãe de duas crianças extraordinárias João Paulo, 6 anos e Gabriel, 3 anos. A vida toda quis ser mãe e formar uma família, casou com o grande amor da adolescência e juntos educam os filhos dentro da Parentalidade Positiva. Tem como missão de vida capacitar pais e mães para utilizarem as ferramentas da Disicplina Positiva e da Parentalidade Positiva junto aos filhos. Ler e escrever é uma paixão na vida.




Bárbara Leite Liberato

Educadora Parental em Disciplina Positiva

Membro da PDA / Brasil

Jornalista e Advogada

Certificada em Parentalidade Positiva pela Escola de Parentalidade e Educação Positivas de Portugal

Especializando em Neurociência e Comportamento - PUC/RS

Idealizadora e Editora do blog cheirodemae.com.br

(99) 981326509 - barbaraleiteliberato@hotmail.com

@barbaraleiteliberato


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