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  • Barbara Leite Liberato

O que torna a sua criança única?

Crianças com deficiência possuem a mesma necessidade de qualquer outra criança: se sentir aceita e importante. A Disciplina Positiva nesse sentido não é cura para nenhuma condição de deficiência. No entanto ajuda a qualquer criança a aprender valores sociais e de vida que irão auxiliá-las a tomar decisões responsáveis que levam a uma vida mais produtiva. Destaca-se aqui o respeito-mútuo, compreensão empática, saber olhar o ponto de vista da criança e a comunicação assertiva que as encoraja a aprender a resolver problemas.

Mariane após coletar sangue para 36 exames


Depois de um longo período sem conseguir ir a qualquer médico, e quando digo longo período me refiro a anos! Sobretudo se fosse um médico diferente dos de costume: neuropediatra e os profissionais das terapias semanais - psicopedagoga, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional. Depois de tentar levar à força, ou porque já estávamos angustiados por ela passar tanto tempo sem uma consulta de rotina, ou porque houveram episódios de febres, tosses e muitos outros sintomas. E depois de cuspir nos médicos, coitados!

Depois de crises de ansiedade ao tentar ir, com sintomas de tremores, e quando falo tremores, é quando ela treme o corpo inteiro, da ponta dos pés ao queixo. Depois de muitas e muitas tentativas frustradas! Depois de trabalhar muito tempo, com vídeos, imagens, desenhos que ficassem expostos por um bom tempo no quarto, explicando a função do médico e suas diferentes especialidades. Aqui é importante ressaltar que a família também ajudou sempre falando da necessidade de ir ao médico, sempre comentando quando alguém foi ao médico e relatando detalhes da consulta.

Depois de trabalhar durante semanas a rotina do dia da visita à pediatra, explicando em detalhes o que aconteceria na consulta. Depois de encontrar uma pediatra humanizada e mostrar, várias vezes, fotos da clínica, vídeos da pediatra. Depois de ela aceitar somente: “Eu vou só esperar você conversar com a doutora e pegar alguns papéis”. Depois de preparar tudo no dia anterior, chegou o dia da consulta.

Um dia que eu tive que dar dedicação total à minha filha até que ocorresse a consulta. Importante atentar e impedir os fatores ambientais que são gatilhos de crises nervosas, no caso da nossa princesa são: calor, fome, ambiente com som alto. Não criei expectativa nenhuma que ela ao menos fosse entrar no consultório, principalmente deixar olhar a garganta.

Mariane, muito desconfiada, medindo o tamanho no consultório pediátrico

Mariane permitindo a pediatra olhar a garganta


Mariane foi firme e mesmo nervosa, trêmula, repetindo sem parar que “Eu vou só esperar você conversar com a doutora e pegar alguns papéis”. Então ela conseguiu. Conseguiu subir na balança e muito desconfiada deixou a auxiliar medir seu tamanho. Ao entrar no consultório já foi repetindo bem alto “Doutora eu não vou me consultar, eu vou só esperar a mamãe conversar com você e pegar alguns papéis”. Pela Graça de Deus a doutora não a corrigiu e só disse que tudo bem. Já ofereceu uma cartela de adesivos para que Mariane escolhesse um. E tudo foi conduzido de forma calma, tranquila, sem correria. O "hiperfoco" da Mariane são animais, então a pediatra acertou em cheio e foram primeiro consultar os animais. Na sequência, tudo que a pediatra pedia, Mariane simplesmente a deixava analisar. Garganta, ouvido, tudo! Eu fiquei só como expectadora com os olhos marejados lembrando de tudo o que já passamos para chegar ali. Não teve grito e nem choro. Foi uma benção!

“Quanto mais você for capaz de entender o que torna a criança única como uma pessoa por inteiro, mais você será capaz de selecionar ferramentas de apoio e orientação que levarão ao desenvolvimento de suas habilidades socialmente úteis em longo prazo”. Jane Nelsen em seu livro Disciplina Positiva para crianças com deficiência, página 55.

Foi preciso parar de desafiar a Mariane a fazer coisas que ela tinha pavor, ela simplesmente não entendia porque eram necessárias e só a desafiavam por inteiro, seus pensamentos, seus sentimentos e seus comportamentos combinados. Quando paramos de desafiá-la, quando tivemos empatia pelo que ela estava passando e quando buscamos entendê-la por inteiro, quando buscamos ferramentas para ajudá-la no seu processo de amadurecimento aceitando o tempo dela, então, conseguimos que essa habilidade social fosse realmente desenvolvida.

Mariane fazendo Raio-X


E assim, depois desta consulta, com todos os cuidados, trabalhando da mesma forma: explicando a importância, explicando os benefícios, mostrando fotos do local, fotos das atendentes, visitando só para conhecer o local com antecedência, mostrando vídeos dos procedimentos, mostrando vídeos dos médicos para que ela escutasse o tom de voz, solicitando atendimento especial em horários menos movimentados. Nossa querida filha já conseguiu consulta em outras médicas, bem como exames! E os cuidados continuam mesmo após estes eventos, pois ela fica exausta. Geralmente dorme muito depois devido à sobrecarga de emoções. Dificuldades, aprendizados e vitórias que nos trouxeram alegria e força para continuar.

Quando paramos de desafia-la, quando tivemos empatia pelo que ela estava passando e quando buscamos entende-la por inteiro, quando buscamos ferramentas para ajudá-la no seu processo de amadurecimento aceitando o tempo dela, então, conseguimos que essa habilidade social fosse realmente desenvolvida.

Em Nota:

Mariane Araújo tem 6 anos de idade e é autista verbal




Sobre a autora

Karuane Araújo é mãe da Mariane 6 anos autista verbal e do Miguel de Maria 2 anos, de temperamento forte, esposo do Bruno Araújo, aplicadora da disciplina positiva na educação das crianças.


Karuane Araújo

Chefe da Divisão de Cursos de Pós-Graduação - PROPGI/UEMASUL

Engenheira de alimentos - Mestre em Ciências da Saúde

Tel: 099 991081406 CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/1115832947713877

@karuanearaujo



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