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  • Barbara Leite Liberato

O que é mais importante: a natureza ou a criação da criança?

As experiências que vivenciamos no início da nossa vida, podem agir na programação dos genes que herdamos geneticamente dos nossos pais, de forma positiva ou de forma negativa. As adversidades vivenciadas na infância não afetam apenas o estresse, mas muito daquilo que acontece no cérebro.



Nem tudo é uma questão de genes. Temos uma tendência a pensar que o ambiente é algo efêmero, nada muito sério. E por isso não teria muito impacto na vida das pessoas. Mas na realidade, o ambiente tem um impacto muito forte na maneira como o ser humano irá se desenvolver. O ambiente afeta não apenas o comportamento das pessoas, mas afeta também propriedades físicas do ser humano, como o genoma, por exemplo. Conrad Washington, geneticista britânico que desenvolveu as bases da Epigenética e da Biologia Evolutiva do Desenvolvimento, afirmou em seus estudos que o mesmo gene pode fazer coisas diferentes em horas e contextos diferentes.

O ser humano nasce com uma programação epigenética para o futuro, mas o que acontece no ambiente dele, em termos de desafios, ainda na infância e na adolescência, podem ser determinantes no desenvolvimento do cérebro. É como se as nossas experiências sociais comportamentais fossem embutidas no nosso DNA, e isso de alguma forma afeta quem somos e o destino que teremos. A forma como uma criança reage ao estresse, por exemplo, tem um grande impacto na vida dela. Pois, todo ser humano reage ao estresse, mas nem todos reagem da mesma maneira.

É a forma como os pais criam seus filhos que fazem diferença na forma como eles lidam com as adversidades e com o estresse na vida adulta. Não é apenas na intensidade ou amplitude que as respostas dadas são diferentes, mas também na duração. Ou seja, depois que o estresse termina, o tempo gasto para que o cérebro volte ao normal, de forma menos agressiva, por exemplo, é influenciado pelo ambiente e as experiências que os pais proporcionam para as crianças.

Para o Professor Moshe Szif *, “Eventos no início da vida podem afetar o futuro de animais, ou de seres humanos de uma maneira que podem os predispor a doenças, por exemplo. E isso acontece devido ao ambiente, não por causa dos genes ruins que herdaram, mas a forma que eles foram programados por eventos que aconteceram no início da vida”. À medida que os comportamentos vivenciados na infância e na adolescência vão sendo barrados ou estimulados, o cérebro vai sendo moldado e o tipo e quantidade de hormônio que libera no sangue pode ser determinante na forma como os genes serão programados. “Adversidades no início da vida e o status socioeconômico estão conectados ao sistema imune, ao sistema metabólico, ao comportamento e ao cérebro”, explica Szif.

O cérebro gosta de descobrir que é amado. Logo o apego maternal é importante em todo o desenvolvimento da criança. O que acontece na vida da mãe, na infância dela ou na vida adulta, na gravidez ou durante o parto, não interfere apenas no cérebro, mas no DNA e no sistema imunológico da criança.

O ambiente social, físico e biológico estão conectados um no outro. O comportamento dos pais afeta o cérebro dos filhos, gerando um ciclo capaz de ser interrompido quando se altera o ambiente.

Portanto, o ser humano é 50% genética e 50% ambiente. Se não é possível mudar os genes que recebemos de herança dos nossos antepassados, é possível mudar a programação deles. Afinal, as experiências vivenciadas afetam a maneira como nosso DNA funciona. E a maneira como nosso DNA funciona, afeta o nosso comportamento. Isso explica o fato, por exemplo, de irmãos carregarem a mesma genética, mas por vivenciarem experiências diferentes, faz com que o genoma seja programado de maneira também diferente. Já ouviu aquela famosa frase de que “comportamento gera comportamento”? Pois bem: o nosso DNA é afetado pela maneira que interagimos com as pessoas, mesmo que não tenhamos nenhum contato físico com elas. E não afeta apenas a nós, mas também as nossas gerações futuras.

Logo, quando você intimida uma outra pessoa, é agressivo, provoca traumas e situações de muito estresse ou muita ansiedade, não está apenas mudando a vida dessa pessoa, mas pode estar alterando a dos filhos e dos netos dela também. Daí a importância de se educar filhos em ambientes saudáveis emocionalmente, com respeito à integridade física e psíquica da criança, proporcionando experiências capazes de criar habilidades tais como flexibilidade, resiliência, autoestima equilibrada, interação social e autoconhecimento. É preciso educar com o cérebro em mente, para se ter num futuro não muito distante gerações e gerações saudáveis.



*Moshe SzifProfessor de farmacologia. Ocupou a cadeira Glaxo Smith Kline e James McGill em farmacologia, na Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. Membro da Royal Society of Canada e da Academia Canadense de Ciências da Saúde. Szyf foi pioneiro na pesquisa em metilação do DNA nas últimas três décadas e publicou mais de 290 artigos sobre o papel biológico da metilação do DNA. Foi pioneiro na farmacologia epigenética no câncer e no campo da epigenética comportamental. Seus estudos fornecem uma ligação molecular entre ambiente e genes e entre criação e natureza, tendo um amplo impacto nas ciências sociais e na psiquiatria.



Sobre a autora:

Bárbara Leite Liberato é casada com Fernando Liberato, mãe de duas crianças extraordinárias João Paulo, 5 anos e Gabriel, 2 anos. A vida toda quis ser mãe e formar uma família, casou com o grande amor da adolescência e juntos educam os filhos dentro da Parentalidade Positiva. Tem como missão de vida capacitar pais e mães para utilizarem as ferramentas da Disicplina Positiva e da Parentalidade Positiva junto aos filhos. Ler e escrever é uma paixão na vida.

Bárbara Leite Liberato

Educadora Parental em Disciplina Positiva

Membro da PDA / Brasil

Jornalista e Advogada

Especilista em Parentalidade Positiva pela Escola de Parentalidade e Educação Positivas de Portugal

Especializando em Neurociência e Comportamento - PUC/RS

Idealizadora e Editora do blog cheirodemae.com.br

(99) 981326509 - barbaraleiteliberato@hotmail.com

@barbaraleiteliberato

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