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  • Barbara Leite Liberato

Higiene do Sono

Os distúrbios do sono em crianças são sempre importantes já que trazem grande impacto na dinâmica da família. o sono saudável pode ser um fator de proteção essencial para lidar positivamente com os desafios, já que o sono é um fator importante que regula o comportamento e as emoções.


O sono da criança sofre a influência de questões sociais, culturais e familiares, criando uma grande variedade de fatores que determinam e/ou dificultam o conceito de sono “normal” da criança. Por outro lado, sabe-se que o sono saudável pode ser um fator de proteção essencial para lidar positivamente com os desafios, já que o sono é um fator importante que regula o comportamento e as emoções.

Os ciclos de sono nas crianças são mais longos e mais ricos nas fases profundas. Durante a fase profunda do sono chamada de “sono de ondas lentas”, há liberação de 90% do hormônio do crescimento (GH) e na fase profunda chamada REM (Rapid Eyes Movement) há enormes atividades cerebrais aumentando as sinapses, o que se relaciona à memória e capacidade cognitiva. As necessidades diárias de sono variam de acordo com a faixa-etária da criança e adolescente:

• Lactentes dos 4 aos 12 meses: 12 a 16 horas por 24 horas (incluindo cochilos);
 • Crianças de 1 a 2 anos: 11 a 14 horas por 24 horas (incluindo cochilos);
 • Crianças de 3 a 5 anos: 10 a 13 horas por 24 horas (incluindo cochilos);
 • Crianças de 6 a 12 anos: 9 a 12 horas sono noturno por 24 horas;
 • Adolescentes de 13 a 18 anos: 8 a 10 horas sono noturno por 24 horas.
Ritual de sono é tudo aquilo que se faz quando preparamos a criança para ir para a cama.

Desde o anunciar que é hora da criança se acalmar, guardar seus brinquedos, colocar o pijama, tomar leite, escovar os dentes, até ouvir uma música ou uma historinha contada pelos pais já debaixo das cobertas, por exemplo. A higiene do sono é utilizada em todas as idades para organizar o horário e os rituais de sono, é importante para o enfraquecimento de hábitos inadequados e para a instalação de rotinas que se associem ao dormir bem.


Dentro dos rituais para dormir, além da ingestão de leite, a presença de luz acesa e de um objeto transicional são comportamentos comuns em algumas crianças. Objetos transicionais são brinquedos, fraldas de pano, cobertores ou qualquer outra coisa a qual a criança se agarra para ter segurança, principalmente na hora de dormir. Os objetos transicionais não são comportamentos obrigatórios para adormecer. Possuir um objeto transicional depende da criança, da família e da cultura onde estão inseridos. Os objetos transicionais geralmente acalmam a criança durante esse período de adormecer sozinhas. Eles são a transição entre a dependência dos pais e a autossuficiência. Podem se tornar um problema para o sono quando a criança não conseguir dormir sem ele.


Foto Guto Seixas / Editora Globo


Para as crianças pequenas, dormir pode significar ter que se separar ou se desligar dos pais e isso poderá causar ansiedade. Entretanto, esse momento poderá ser muito especial se for utilizado adequadamente e dentro de alguns limites. Esse momento poderá ter a duração de dez a trinta minutos, com atividades relaxantes. É importante que se determine o final desse momento e o início da hora de dormir. Adiar esse limite, trazendo mais um copo de água ou lendo mais uma historinha, pode sugerir que a criança tenha a capacidade de transgredir os limites estabelecidos pelos pais e gerar problemas. As crianças são muito criativas quando querem adiar o momento de dormir e os pais deverão estar bem seguros para perceber quando isso ocorre.

As crianças também apresentam breves despertares durante a noite, o que é normal, mas esses despertares deverão ser conduzidos como na hora de dormir, isto é, a criança deverá permanecer sozinha e na própria cama. Caso haja necessidade em socorrê-las, deverá ser breve, sem estímulos como luzes, vozes altas por exemplo.

Muitos pais gostam de embalar as crianças para dormir, deitar junto delas, deixá-las adormecer na frente da televisão ou em suas camas, levando-as para suas próprias camas quando adormeceram. Esses pais deverão perceber que estão criando hábitos inadequados e que podem trazer problemas para o sono da criança. Quando essas crianças despertam durante a noite, primeiro se assustam por não estarem no mesmo local onde adormeceram e depois vão precisar dos mesmos rituais para adormecerem novamente. Desse modo, este breve despertar torna-se um acordar seguido de choro.


A criança deverá aprender a dormir sozinha para que, quando os despertares noturnos acontecerem, ela deva se sentir segura e capaz de adormecer novamente por si só. Para que isso ocorra, os pais deverão se sentir seguros de como ajudar a criança a adormecer sozinha, proporcionando segurança, conforto e bem-estar. Os pais deverão aprender primeiro a reconhecer as necessidades de seus filhos e o que está acontecendo naquele dia e naquele momento. Se a criança acorda e chora, os pais deverão reconhecer o motivo do choro, se for doença, medo ou breve despertar. Para cada situação, os pais deverão reagir de forma diferente.


Qualquer mudança na rotina da criança, tanto no dia como na noite (como viagens ou doenças), poderá afetar o sono. Contudo, na maioria das vezes, trata-se de um breve despertar, onde se deve encorajar a criança a voltar a dormir e sozinha, e a demonstração de segurança por parte dos pais já deverá ser suficiente.

Foto Nadjara Nunes - Maria Catarina filha de Tayane Cerqueira e Vitor Cerqueira


A resistência em ficar sozinha no quarto ou se locomover para o quarto dos pais não poderá ser modificada de modo traumático. A recondução tranquila pelos pais para seu quarto e com palavras confortantes (sempre estarão por perto se houver necessidade e que poderá dormir e ficar tranquila em seu quarto) deverá ser feita quantas vezes forem necessárias. Quando há choro junto do despertar, é necessário que os pais acalmem a criança, mas reforcem o adormecer sozinha. Algumas crianças são mais difíceis de acalmarem e precisam de mais tempo para adormecer. Nessa hora, a calma, a paciência e o conhecimento por parte dos pais são fundamentais para a segurança da criança. Há certos pais que não suportam ouvir a criança chorar, por mais que reconheçam ser um choro de “manha” por exemplo. Eles se sentem “abandonando” a criança. Esses pais acabam por reforçar esse comportamento da criança e não auxiliam o desenvolvimento da auto-segurança e deverão ser atentados para esta situação.


Embora pareça lógico atender às demandas das crianças para permanecer com elas durante a noite, em situações estressantes, o sono compartilhado, ou seja, na mesma cama, demonstrou ter um efeito negativo na qualidade do sono e nos níveis de estresse de crianças e pais (Teti et al., 2016).

As recomendações da Força-Tarefa da Academia Europeia para Terapia Cognitiva Comportamental para Insônia (Altena et al., 2020), para pais e crianças, no contexto familiar, são:
1: Mantenha horários regulares de sono para seu filho (os); selecione o melhor horário para ele (s) e mantenha-os em um mesmo padrão;
2: Faça dos últimos 30 minutos antes de dormir uma rotina regular que inclua atividades tranquilas; escolha atividades que não só a criança goste, mas que o cuidador ou os pais também gostem. Um pai feliz por estar com ele é o que a criança mais gosta. Mantenha a ordem e a duração das atividades semelhantes a cada noite;
3: Enquanto estiver usando computador, smartphones e assistindo à TV mais do que o normal (o que pode ser inevitável em confinamento), evite dispositivos tecnológicos após o jantar ou muito perto da hora de dormir;
4: Não permita que seus filhos usem smartphones, tablets ou TV na cama;
5: Caso o espaço da sua casa permitir, tente evitar que as crianças usem a cama para outras atividades além de dormir (por exemplo, comer, brincar, fazer lição de casa) ou faça uma distinção clara entre o uso diurno da cama e o uso noturno da cama (por exemplo, trocando uma capa, o lençol para dormir e colocar travesseiros;
6: Caso a criança possa sair, é melhor sair de manhã e tomar o café da manhã em um local com luz brilhante, se possível em um jardim ou varanda;
7: Caso não possa sair, o cuidador/pais deve (m) cuidar da atividade física da criança. Programas online para esportes em casa com crianças foram criados em muitos países e poderão ser muito úteis;
Atividade esportiva à noite também deve ser evitada, pelo menos até 3 horas antes da hora de dormir.
8: Mantenha o quarto da criança confortável (temperatura adequada e pouca luz à noite);
9: Tranquilize as crianças informando que seguir os horários e rotinas as ajudarão a dormir bem e a lidar com suas emoções;
10: No caso de despertares ansiosos, tranquilize as crianças durante a noite;
11: Não durma na mesma cama que a criança, mas garanta que estará por perto.
 

Referências:

https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/19807c-DocCient_-_Higiene_do_Sono.pdf

https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/coronavirus-o-sono-da-crianca-em-epoca-de-confinamento/


Sobre a autora:

Olá, é um prazer conhecer vocês que frequentam esse blog! Um lugar de escuta, de fala e principalmente de compartilhamento. Vejo aqui um espaço em que poderemos compartilhar muito mais do que os desafios das relações entre pais e filhos, mas principalmente as experiências e as motivações que encontramos no dia a dia de cada família. Sou médica, pediatra, e espero enriquecer esse espaço através de orientações e discussões norteadas pelo conhecimento médico.


Dra. Raquel Carvalho Leite

Médica formada na Universidade Federal de Minas Gerais. Pediatra pelo programa de Residência Médica do Hospital das Clínicas da UFMG. Titulada em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Especialização em Terapia Intensiva Pediátrica e Neonatal pelo Neocenter e Titulada em Terapia Intensiva Pediátrica pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira.

@quelcleite

e-mail rcl134@yahoo.com.br


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