Buscar
  • Barbara Leite Liberato

Gestar uma nova vida pós pandemia

Atualizado: 5 de Nov de 2020

O Covid -19 chegou com um convite: vamos olhar para a nossa vida e apreciar a vista? Entre desencontros, distanciamentos e desafios, parir uma nova vida se fez necessário. Uma gestação turbulenta com um final feliz, ao menos por ora: uma vida potente, capaz de escolher e sentir.


Nove meses de quarentena trancados em casa, cansados de fazer tudo, cansados de não fazer nada. A vida entrou em recesso. Pausas, tédio, estresse, cansaço, falta de paciência ou sobras dela, tanto faz. Todos sentimos algo sair de dentro de nós. Como pais de primeira viagem, a ficha demorou um pouco a cair, adaptar-se a uma nova vida é um desafio. Essa gestação trouxe com ela muitos incômodos e sentimentos: insônia, ansiedade, curiosidade, alegria, tristeza, raiva, medo, realização. Seria os hormônios à flor da pele ou aquela velha sensação de não estar no controle da situação?

Se nós os adultos passamos por tudo isso, a criança também passa só que com menos maturidade, menos conhecimento, menos resiliência, menos controle. A pandemia trouxe para a vida muitos desencontros. Não apenas escondeu o nosso rosto atrás de uma máscara, mas também trouxe distanciamentos. Distanciamos uns dos outros e de nós mesmos.

A vida através de uma tela não é tão colorida, não é muito doce e nem tampouco divertida. Mas entre uma janela e outra dá para ver um sorriso, ouvir a melodia das lágrimas caindo. É meio sem graça, eu sei. É o que tem para hoje? Então está tudo bem. Seguimos nos vendo de longe, nos amando de longe, conversando de longe, interagindo de longe. É mais seguro? Talvez! Mas não é normal, não é humano, não abastece, não cura e não nos é vital.


Abraços! O toque! O olho no Olho! O essencial! Isso álcool nenhum é capaz de matar! Porque são esses laços que nos unem e nos ajudam a lutar! Enquanto pais a vivenciar o desconhecido, quando parimos nossos filhos, é o colo, o afeto, as lágrimas e a esperança de que um dia tudo isso vai passar que nos fortalece no caminhar.

Noites mal dormidas, trabalhos a empilhar, tempo de menos, tempo a sobrar. Feridas sendo cicatrizadas, sentimentos a fervilhar, já não pensamos direito e algumas vezes chegamos até a duvidar. Engraçado como esse tempo é tão parecido com o puerpério: poder ir ao supermercado sozinha é o mais perto que chegamos da nossa antiga vida. E andar pelas gôndolas é algo tão banal, mas ao mesmo tempo tão divertido e normal. Poder fazer nossas próprias escolhas, mesmo que seja aquela marca de sabão em pó, aquele pó de café que é tão seu. Escolhas! Quem diria que em pleno século 21 iríamos abrir mão das nossas escolhas!

É cara mãe, caro pai.... a gente sente não é mesmo? As crianças também! Sentem a falta da escola, da socialização, dos amigos e até da ausência dos pais. Sentem a falta do ar livre, do ar puro, dos esportes, do brincar, das escolhas que mesmo não sendo grandiosas, já deixavam um gostinho de autonomia no ar. Sentem saudade da casa da vovó, dos parentes, dos primos e de poder chorar. Sentem falta da paciência, da presença, da firmeza no olhar. São tantas coisas que deixamos escapar, que assim jogadas ao vento, já não é possível identificar.


Nove meses se passaram. Eu já estava ansiosa para ver o rostinho dessa nova vida que nasceu de dentro de mim: ela tem mais tela do que eu gostaria, é chorona e também muito bonita de ser ver. Esperta e muito inteligente que nem parece gente! Sabe apreciar o silêncio e lançar mão da paciência. Já se vê que é forte e determinada – ela sabe o que quer! Eu pari um novo ser, uma nova versão de mãe, uma nova versão de mulher, eu pari com afeto e com dor, com apoio e com amor. Eu pari de forma inteira, consciente e humanizada. Para essa nova vida eu desejo muito mais do que felicidade ou saúde. Eu desejo poder! Poder sentir, poder tocar, poder abraçar, poder escolher, poder viver.



Sobre a autora:

Bárbara Leite Liberato é casada com Fernando Liberato, mãe de duas crianças extraordinárias João Paulo, 6 anos e Gabriel, 3 anos. A vida toda quis ser mãe e formar uma família, casou com o grande amor da adolescência e juntos educam os filhos dentro da Parentalidade Positiva. Tem como missão de vida capacitar pais e mães para utilizarem as ferramentas da Disicplina Positiva e da Parentalidade Positiva junto aos filhos. Ler e escrever é uma paixão na vida.




Bárbara Leite Liberato

Educadora Parental em Disciplina Positiva

Membro da PDA / Brasil

Jornalista e Advogada

Certificada em Parentalidade Positiva pela Escola de Parentalidade e Educação Positivas de Portugal

Especializando em Neurociência e Comportamento - PUC/RS

Idealizadora e Editora do blog cheirodemae.com.br

(99) 981326509 - barbaraleiteliberato@hotmail.com

@barbaraleiteliberato


15 visualizações

Posts recentes

Ver tudo