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  • Barbara Leite Liberato

Escutar com mais do que apenas os ouvidos

Você sabe escutar para além dos ouvidos? Enxergar para além dos olhos? Sentir a energia à sua volta? Controlar os próprios impulsos, respirar e fazer boas escolhas em relação aos desafios de comportamento dos seus filhos? A Parentalidade Positiva possui três ferramentas: comunicação positiva, a arte de colocar boas questões e inteligência emocional. Esse tripé pode ajudar imensamente a solucionar os desafios diários com os pequenos e os grandes também.


Após alguns dias sem ninguém para ajudar nas tarefas domésticas na casa de Thereza, ela chamou o marido e os três filhos: Miguel 11 anos, Sofia 7 anos e Joaquim 4 anos para uma reunião, na tentativa de conseguir a colaboração de todos com o cuidado da casa e daquilo que era comum a eles. Afinal, para que os adultos pudessem trabalhar, agora em Home Office e as crianças frequentarem as aulas da escola, agora no formato On line, era importante cooperação na organização da casa: entre outros afazeres, as roupas precisavam ser lavadas e penduradas para secar, era preciso cozinhar, limpar e lavar as louças também.

Com tudo acordado previamente entre eles, Thereza se sentiu melhor e criou expectativas de que no dia seguinte, ela estaria menos cansada e conseguiria cumprir os seus prazos no trabalho. Após o café da manhã, ela relembrou as crianças do combinado. Eles ficaram responsáveis por retirar a roupa da máquina e pendurá-las no varal, organizarem a casa e lavarem as louças após as refeições.

Qual não foi a surpresa de Thereza, quando ela acabou de falar, Miguel e Joaquim foram para a lavanderia e Sofia, simplesmente disse que não iria fazer as tarefas solicitadas pela mãe. Ela se levantou da mesa e se dirigiu para o quarto, pegou as bonecas e começou a brincar.

Thereza tinha duas opções:

1). Ir atrás e entrar em uma disputa de poder com Sofia: Gritar - “Quem manda aqui sou eu”. Se enfurecer e bater boca com a sua criança a obrigando a cumprir o combinado. Desgastando-se em castigos e outras punições. Pegá-la pelo braço e forçá-la a ir até a lavanderia.

2). R E S P I R A R, oxigenar o cérebro para lembrar-se que a atitude de Sofia não é uma afronta pessoal. Que não é sobre Thereza, mas sobre Sofia. Pensar em estratégias para envolver Sofia de uma forma que também respeite a forma que a filha tem de pensar e fazer as coisas. Se comunicar de forma não – violenta e conseguir a cooperação sem que Sofia se afaste.


Parece simples, mas não é. A cada dia novos desafios vão ganhando destaque na relação parental. Cada filho, um desafio diferente. Desafios que provocam dor: ou por não saber lidar com eles ou por serem um espelho, refletindo nós mesmos nas atitudes dos nossos filhos. E quando agimos no automático, estamos ali, repetindo com as nossas crianças o que fizeram conosco. Aquilo que em algum momento da sua maternidade, você jurou que jamais faria com seus filhos.

Quando você opta pela segunda opção, escolhe ter empatia pela criança e então consegue entrar no mundo dela. E isso é “Escutar” com mais do que apenas os ouvidos. Independente da criança, seja ela com deficiência ou não, com habilidades comunicativas verbais ou não-verbais, “escutar” o que ela está comunicando, usando mais que os ouvidos, ajuda o adulto a ganhar uma compreensão da vida a partir do ponto de vista daquela criança. Para isso é preciso usar os olhos para ver o que o corpo dela está a falar, implica usar as suas próprias sensações para codificar a energia que está ali presente, é imprescindível não fazer julgamentos.

“Na perspectiva de compreender melhor a sua criança, você pode ser mais flexível e criativo ao considerar soluções para os desafios que funcionarão para ela (a criança) e para você”, afirma Jane Nelsen, Steven Foster e Arlene Raphael no livro Disciplina Positiva para crianças com deficiências.

Fazer perguntas curiosas para a criança a convida a pensar em soluções para o desafio que ela enfrenta. Quando o adulto escuta a resposta da criança aumenta a própria capacidade de ver o problema do ponto de vista dela e ajuda no desenvolvimento da capacidade de solucionar o desafio de maneira respeitosa e colaborativa. É importante ajustar as perguntas para o nível de comunicação da criança. Para as maiores comece com “O que e Como”. “O que você precisa para...” ou “Como você pode...”. Crianças menores ou com deficiência de comunicação podem ser conduzidas por meio de poucas palavras e mais gestos. Usar a forma lúdica de se comunicar.


Voltando para Thereza e Sofia. Depois de respirar fundo, Thereza foi ter com Sofia e disse a ela: “Filha, você se lembra do nosso combinado de ontem? Preciso que você vá ajudar seus irmãos com a roupa”. Sofia então respondeu: “ Mãe, agora eu só quero brincar”. Thereza respirou de novo e falou mentalmente para ela mesma: “Não é sobre mim”. Então perguntou a Sofia: “Daqui meia hora, quando acabar de brincar, você pode ir cuidar da roupa?” E Sofia disse que sim. Thereza se dirigiu a Miguel e Joaquim pedindo que deixassem uma parte das roupas para Sofia organizar mais tarde.


Não podemos controlar o comportamento do outro, mas podemos escolher o nosso próprio comportamento, a forma como nos comunicamos e como nos autorregulamos. Temos um leque de sentimentos e somos invadidos por eles ao longo do nosso dia diversas vezes, mas escolher o que fazer com aquilo que sentimos nos empodera nas nossas relações com o outro. E quando o outro são nossos filhos, isso é primordial para se ter conexão, fazer correções e criar habilidades de vida.

A comunicação positiva, a arte de colocar boas questões e a inteligência emocional são as três ferramentas da Parentalidade Positiva. Apesar de ser desafiador, podem ser usadas nos desafios do dia a dia com as crianças. Com escolhas conscientes, é possível chegar em soluções comuns e respeitosas para pais e filhos.

Sugestão de Leitura:

Disciplina Positiva – Jane Nelsen

Crianças Felizes – Magda Gomes Dias


Sobre a autora:

Bárbara Leite Liberato é casada com Fernando Liberato, mãe de duas crianças extraordinárias João Paulo, 5 anos e Gabriel, 2 anos. A vida toda quis ser mãe e formar uma família, casou com o grande amor da adolescência e juntos educam os filhos dentro da Parentalidade Positiva. Tem como missão de vida capacitar pais e mães para utilizarem as ferramentas da Disicplina Positiva e da Parentalidade Positiva junto aos filhos. Ler e escrever é uma paixão na vida.


Bárbara Leite Liberato

Educadora Parental em Disciplina Positiva

Membro da PDA / Brasil

Jornalista e Advogada

Especilista em Parentalidade Positiva pela Escola de Parentalidade e Educação Positivas de Portugal

Especializando em Neurociência e Comportamento - PUC/RS

Idealizadora e Editora do blog cheirodemae.com.br

(99) 981326509 - barbaraleiteliberato@hotmail.com

@barbaraleiteliberato



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