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  • Barbara Leite Liberato

Entrevista: Aulas on line na Pandemia


A palavra para esse novo formato de aula é DESAFIO. As aulas on-line estão exigindo de todos - pais, professores e escola - habilidades não usuais. Apesar do consenso de ser uma segurança para as crianças e adolescentes diante da pandemia do COVID-19, será que é uma maneira eficaz de se aprender?

Cada família, uma realidade, e lidar com essa diversidade do outro lado da tela não tem sido nada fácil para os professores. Já os pais, sobretudo com os filhos menores, precisam estar supervisionando as aulas, o que gera um estresse sem precedentes.

Por outro lado, muitos pais afirmam que a tecnologia veio para ficar e mesmo após o retorno das aulas presenciais, as escolas deveriam manter esse formato. Em muitas casas, as crianças se adaptaram bem, sobretudo aquelas que gostam das telas, são mais centradas e já possuem uma idade e maturidade para lidar melhor com a tecnologia (a partir dos 8/9 anos).

Pensando nisso, o CHEIRO DE MÃE perguntou para vários pais, mães e educadores como tem sido esta experiência. Mediante as respostas positivas e negativas recebidas, resolvemos convidar Gerusa Gasparini, Mãe, Psicopedagoga e Educadora Parental para esclarecer este novo formato, os novos comportamentos que têm surgido entre as crianças e os adolescentes sob a perspectiva da Disciplina Positiva, da Psicopedagogia e também da maternidade. O objetivo é encontrar um equilíbrio dentro desse novo processo que já se mostra complexo e que envolve uma cooperação sem precedentes entre Escola, Professores e Pais.



Gerusa Gasparini é Mãe, Pedagoga, Psicopedagoga e Educadora Parental Certificada pela PDA - Positive Discipline Association. Ela é especialista em descomplicar a vida dos pais através da Disciplina Positiva.

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Instagram: @ge.gasparini














Cheiro de Mãe: Cada criança tem uma necessidade, um temperamento, uma personalidade, por isso, cada uma lida com o formato de aula on line de uma forma. Por vezes, dentro de uma mesma família, cada um dos filhos se comporta de uma forma diferente. Isso pode ser um grande desafio para os pais. Como ajudá-los a acolher emocionalmente cada criança na sua individualidade, na sua forma única de aprender novos conteúdos?

Gerusa Gasparini: O olhar empático para essa situação irá fazer a diferença. Assim como todos os desafios de educar nossos filhos, esse momento será fundamental para que exista acolhimento e uma atenção diferenciada de acordo com a necessidade de cada um.

É preciso compreender que nesse momento estamos sendo responsáveis apenas por gerenciar os estudos dos nossos filhos (local, tempo, organização). A escola continua sendo a responsável por ensinar os conteúdos. Se a criança estiver sentindo muita dificuldade procure a professora e veja como ela pode te orientar. Não carregue todos os esforços sozinhas (os). Compartilhe suas angústias e peça ajuda.


Cheiro de Mãe: Como lidar com os desafios de comportamento da criança neste novo formato? Afinal, o professor está do outro lado da tela, os pais estão ao lado dos menores e as crianças acabam ficando mais desafiadoras enquanto os pais esgotam a paciência. Dentro desse contexto, o ensino on-line pode acabar se tornando desmotivante para pais, alunos e professores. Como fica a aprendizagem nessa perspectiva, em que a criança passa a assistir as aulas apenas para cumprir tabela?

Gerusa Gasparini: As aulas estão acontecendo num formato avaliado e preparado pelas escolas com muito cuidado e profissionalismo, mesmo longe do formato considerado ideal, todos estão se esforçando para que as crianças sejam acolhidas da melhor maneira possível, porém dentro desse cenário os maiores possuem uma capacidade de gerenciar e aprender a organizar melhor seus próprios estudos.

Sendo assim, as crianças pequenas precisam ser respeitas no âmbito emocional para que não percam o estímulo e o carinho pela escola. Não se preocupem em conteúdos perdidos para as crianças que frequentam a educação infantil, procurem acolher, contar histórias, montar quebra cabeças, jogos, desenhos, de forma livre dentro do tempo disponível pela família para que seja algo mais leve e com menos cobranças.


Cheiro de Mãe: Alguns pais têm a sensação de que as crianças não estão progredindo no aprendizado, ou que a evolução tem sido muito pequena desde que as aulas passaram a ser em casa. Qual dica você poderia trazer para os pais para que eles se tornem facilitadores desse processo, ao invés de se tornarem uma barreira na evolução da criança?

Gerusa Gasparini: Ao contrário do que muitos pais imaginam, as crianças estão em constante processo de aprendizagem, é preciso mais calma e uma preocupação menos excessiva, as crianças são esponjas das nossas emoções e não precisam de nenhum tipo de cobrança extra no momento.

Todos nós estamos fazendo o que podemos da melhor forma possível, a única maneira de você não se tornar uma barreira de evolução nesse momento, é respeitando a criança e entender que nada está sendo perdido. Muito pelo contrário, eles estão evoluindo e crescendo no âmbito emocional.

Para as crianças maiores, os pais precisam criar uma rotina, ensinar sobre gerenciar seus estudos, anotando suas dúvidas e procurando um canal de comunicação aberto com a professora. Peçam ajuda da escola, procurem pelas professoras, elas continuam sendo a ponte de aprendizado principal entre as crianças.


Cheiro de Mãe: O tempo de exposição da tela é uma grande queixa dos pais. É fato que as crianças e os adolescentes estão ainda mais conectados com a tecnologia com as aulas virtuais. É notável o aumento do estresse, nervosismo, choro e zanga dos pequenos e dos grandes também. Em contrapartida, se não houvesse aulas no formato on line, será que as crianças, na pandemia, também não estariam expostos às telas como TV, tablete, celulares e videogames com aval dos pais? Só que de uma maneira descontrolada? Refletindo sobre isso, será que as aulas online são mesmo as vilãs da história? O que você sugere para equilibrar esse excesso sem comprometer o desempenho emocional dos alunos?

Gerusa Gasparini: As aulas online não são vilãs e não podem ser vistas dessa maneira pelos pais. A tecnologia tem suas vantagens e faz parte do futuro dessa geração. Não podemos fechar os olhos para isso. Fazemos parte de uma minoria privilegiada que está sendo beneficiada por esse recurso no atual cenário educacional.

O excesso de tela realmente prejudica as crianças em alguns aspectos. É preciso olhar para a realidade e necessidade de cada família, adequar horários e fazer combinados respeitosos com as crianças sobre o tempo de uso.

Convidem as crianças para fazer parte da construção de uma nova rotina, pergunte qual horário ela prefere usar, ouça o que seus filhos têm para falar. Quando eles participam desse processo de combinados, eles se sentem colaborando de forma mais efetiva e as chances de tudo caminhar bem são muito maiores. É preciso haver um limite.


Cheiro de Mãe: Nas aulas on-line o foco das crianças é diferente do presencial. Existe uma tendência maior à dispersão, brincadeiras, muito falatório o que prejudica a concentração e pode inclusive afetar a aprendizagem. Alguns alunos simplesmente não conseguem acompanhar as atividades. Como proceder quanto a isso? O que os pais e os professores podem fazer para que os alunos fiquem mais centrados e disponíveis para aprender?

Gerusa Gasparini: Essa questão é a maior dificuldade enfrentada pelas famílias e escolas no momento, mas é preciso orientar nossos filhos a participarem de forma mais adequada possível (ensino fundamental). Reserve um ambiente silencioso, uma mesa de estudos apenas com o material necessário para a aula, com o mínimo de estímulos externos possíveis. Garanta que estejam alimentados, incentivem para que coloquem uma roupa confortável, arrumem o cabelo e deixem o pijama de lado. A professora deverá silenciar o microfone sempre que possível e trazer recursos diferentes para estimular e prender a atenção dos alunos.

Para as crianças de educação infantil, as aulas devem ser curtas e com estímulos diferentes a cada dia, mas é preciso lembrar que crianças pequenas não podem ser obrigadas a se manterem sentadas diante das aulas online. Se estiver difícil para seu filho, procure a escola e veja como vocês podem chegar num acordo que seja respeitoso para a criança.


Cheiro de Mãe: E o que dizer do aspecto social da aprendizagem, da troca, da interação. Sabe-se que com a mediação da tela, tudo isso fica comprometido. É possível resgatar o social no formato on line? De que forma? Como fazer para que estes aspectos fiquem menos comprometidos?

Gerusa Gaspararini: A falta de socialização é o aspecto que mais as crianças estão sentindo durante esse momento. Nesse sentido, é interessante a professora proporcionar momentos de trocas e interação com as crianças, seja um lanche coletivo, um jogo ou uma roda de novidade.

Paralelo a isso, vale colocar as crianças para conversarem com os amigos mais próximos durante alguns momentos do dia.

Passeios ao ar livre, passeios de bicicleta, brincadeiras externas, para que a criança sinta o contato com a natureza e recarregue suas energias. Isso é fundamental para esse momento.




Cheiro de Mãe: Cada faixa-etária se comporta de uma maneira no formato on line de aulas. No geral, os adolescentes e pré-adolescentes têm se adaptado sem muitas reclamações. Admitem que gostam de usar os fones de ouvido, de estarem utilizando a tecnologia e se sentem mais confortáveis nesse formato, chegando inclusive a afirmar que não querem voltar para o ambiente físico da escola. Como você enxerga esse tipo de comportamento? O quanto isso é normal ou perigoso, sobretudo numa fase em que estar com o outro (amigos) é imprescindível para o desenvolvimento cerebral do adolescente?

Gerusa Gasparini: Acredito que essa não seja uma questão da qual precisamos nos preocupar, apenas ficar atentos. O isolamento tem data para acabar e, certamente, eles irão estar com saudades da socialização física com os amigos.

Assim como antes da pandemia é preciso estarmos conectados aos nossos filhos: procurando um diálogo diário e cheio de amor e respeito. Converse sobre como eles estão se sentindo, façam planos de encontros para depois da pandemia.

Controlem o uso excessivo das telas dando espaço para momentos especiais em família, como refeições, jogos, filmes e caminhadas.


Cheiro de Mãe: Já as crianças de 4 a 7 anos têm sentido bastante falta da escola, dos colegas, da professora. Alunos que eram na sala de aula bem desenvolvidos, passaram a apresentar dificuldades no aprendizado e em permanecer focados nas aulas. A maioria se desgasta por estar em frente à tela a tarde toda ou a manhã inteira. Ficam desmotivados nas tarefas e nos deveres de casa. Como você analisa essa questão?

Gerusa Gasparini: É preciso que as escolas busquem um horário que seja respeitoso para as crianças de acordo com a sua faixa etária. Mais de 45 minutos por dia já prejudica a atenção das crianças, é preciso um intervalo e um olhar acolhedor para a realidade de cada criança e de cada família.

Acredito muito que iremos mais um longo tempo nesse formato, por isso busquem um diálogo com a escola para que todos sejam beneficiados com isso.


Cheiro de Mãe: Qual a sua opinião sobre o formato on-line de aula para crianças de 2 e 3 anos de idade?

Gerusa Gasparini: Essa faixa-etária é a que menos precisa desse recurso no momento. Se os pais optarem por manterem as crianças pequenas na escola durante esse período, precisam estar cientes que não pode haver nenhum tipo de ação forçada para que a criança participe das aulas online. Esses encontros precisam ser respeitosos para que exista apenas um vínculo entre a criança e a escola. Não é preciso se preocupar com conteúdos, apenas com o acolhimento emocional das crianças.


Cheiro de Mãe: No que diz respeito às crianças com deficiência, como fica a aprendizagem, a concentração, a interação, a sociabilidade. O que os pais e professores podem fazer em conjunto para um maior aproveitamento desse formato?

Gerusa Gasparini: Para as crianças que precisam de uma atenção especial nesse momento, a parceria escola e família é fundamental para que ele seja acolhido perante as suas necessidades.

A principal dica é respeitar a forma com que a criança quer interagir durante as aulas de forma que ela se sinta o mais pertencente possível dentro desse formato. As atividades precisam ser adequadas de acordo com a necessidade da criança e podem ser realizadas pelos pais ou se possível num horário extra com a professora.


Cheiro de Mãe: Na sua opinião como deve ser o nível de exigência dos pais e da escolacom as crianças nesse período de aula on line e pandemia? Essa criança sendo portadora de alguma deficiência ou não.

Gerusa Gasparini: O mínimo possível. O respeito e a empatia precisam estar em primeiro lugar. Nossos filhos terão um longo caminho pela frente, acalme seu coração e acolha suas necessidades. Não existe conhecimento que esteja sendo perdido nesse momento.


Cheiro de Mãe: Como você enxerga o retorno às aulas presenciais? O que pensa sobre o sistema híbrido de ensino (on line e presencial ao mesmo tempo), seria uma forma segura e eficaz de aprender? O que você ousa dizer que nós enquanto sociedade vamos colher futuramente em termos de educação, comportamento e equilíbrio emocional dessa “geração pós pandemia”?

Gerusa Gasparini: Muitas famílias precisam da escola como apoio nesse momento, a decisão de voltar presencial ou online é pessoal e precisa ser respeitada. A opção do ensino híbrido será uma oportunidade que vai abraçar as necessidades de cada família: preciso mandar para escola ou posso ficar com a criança em casa.

Como ela irá ocorrer será uma descoberta em conjunto, de acordo com a forma de organizar esse novo recurso. Pode ser que dê muito certo, ou infelizmente pode não funcionar. É preciso testar.

Essas crianças serão o retrato de um momento histórico e sem dúvida irão contribuir para um novo olhar para o mundo. Não me preocupo com traumas nesse momento porque as crianças são resilientes por natureza. E nós temos em mãos no momento a capacidade de gerenciar essas emoções com amor e acolhimento.

Acredito que tudo ficará bem e vamos nos surpreender.


Cheiro de Mãe: Você acredita que o retorno das aulas presenciais é seguro para as crianças? Na sua percepção elas se adaptam bem às novas regras de não ter contato com o outro, à necessidade de toque e afeto?

Gerusa Gasparini: Eu acredito muito na facilidade de adaptação das crianças. Porém, não podemos ignorar o fato da preocupação excessiva por parte de pais e professores para controlar tudo isso com responsabilidade, principalmente com as crianças pequenas.

Será um desafio enorme e tudo irá depender da forma acolhedora que será conduzida.



Sobre a autora:

Bárbara Leite Liberato é casada com Fernando Liberato, mãe de duas crianças extraordinárias João Paulo, 5 anos e Gabriel, 2 anos. A vida toda quis ser mãe e formar uma família, casou com o grande amor da adolescência e juntos educam os filhos dentro da Parentalidade Positiva. Tem como missão de vida capacitar pais e mães para utilizarem as ferramentas da Disicplina Positiva e da Parentalidade Positiva junto aos filhos. Ler e escrever é uma paixão na vida.




Bárbara Leite Liberato

Educadora Parental em Disciplina Positiva

Membro da PDA / Brasil

Jornalista e Advogada

Especialista em Parentalidade Positiva pela Escola de Parentalidade e Educação Positivas de Portugal

Especializando em Neurociência e Comportamento - PUC/RS

Idealizadora e Editora do blog cheirodemae.com.br

(99) 981326509 - barbaraleiteliberato@hotmail.com

@barbaraleiteliberato

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