Buscar
  • Barbara Leite Liberato

Disciplina Positiva em Sala de Aula

Disciplina é uma das palavras mais usadas nas salas de aula, mas nem sempre ela é aplicada de maneira correta. Muitas vezes ela é aplicada dentro do contexto de punição invocando a "velha e boa" obediência em que o professor ordena e os alunos fazem sem reclamar. Assim a palavra Disciplina tem se afastado cada vez mais do seu real sentido: ensinar!

O sistema tradicional de ensino prevê uma relação vertical entre aluno e professor - Imagem retirada do https://www.infomoney.com.br


No mês de Outubro é celebrado o dia das crianças e o dia do Professor! Então nada mais justo que a gente dedique um tempo a refletir sobre essa relação: professor - aluno! A Disciplina Positiva apresenta alternativas para lidar com os comportamentos desafiadores dos alunos na sala de aula de forma enriquecedora e eficiente produzindo uma relação mais harmoniosa e feliz para todos os envolvidos. O resultado, é a formação de um adulto capaz de equilibrar o conhecimento acadêmico com o desenvolvimento socioemocional. Pensando em contribuir com pais e professores nesse sentido, o cheirodemãe.com.br resolveu trazer uma convidada mais que especial para um bate-papo sobre a aplicação da Disciplina Positiva em sala de aula e os desdobramentos dessa vivência na vida de alunos, pais e professores. Fernanda Lee é Mestre em Educação e ocupa a posição de conselheira internacional do Corpo Diretivo da Positive Discipline Association e é membro-fundador da Associação Brasileira de Disciplina Positiva. Ela tem muito a revelar e a contribuir conosco sobre esse universo. Então vem com a gente nessa conversa maravilhosa, cheia de leveza e novas perspectivas, direto da Califórnia - EUA.



Fernanda Lee, M.Ed., Positive Discipline Lead Trainer, Play Therapy certified


É mestre em educação e atuou como orientadora educacional em escolas públicas e particulares.

Atualmente, trabalha diretamente com a Dra. Jane Nelsen e ministra todas as certificações como Lead Trainer em Disciplina Positiva (Pais & Profissionais da Saúde, Professores, Educação Infantil, Relacionamentos Amorosos e Empoderar Pessoas no Ambiente de Trabalho). Atua também como Master Trainer Consultoria em Encorajamento e trabalha com a autora Lynn Lott. Por meio deste trabalho de desenvolvimento humano, Fernanda alavanca a sua experiência em escolas, sistemas de saúde mental e multinacionais para oferecer certificações no Brasil, Portugal e Estados Unidos. Fernanda ocupa a posição de conselheira internacional do Corpo Diretivo da Positive Discipline Association e é membro-fundador da Associação Brasileira de Disciplina Positiva. Fernanda é pioneira em divulgar a abordagem humanista no Brasil e em Portugal desde 2015. Ela é casada e mãe de dois filhos (seus maiores professores!).

Instagram: @filosofiapositivaoficial


Cheiro de Mãe: Qual seria a abordagem da Disciplina Positiva dentro das escolas?

Fernanda Lee: A Disciplina Positiva é um programa socioemocional e hoje se fala na BNCC – Base Nacional Comum Curricular que ensina as competências socioemocionais para que os alunos possam sair da escola não só academicamente prontos para enfrentar os desafios da vida, mas também prontos para enfrentar os desafios de comportamento da vida.

Um aluno que só tira dez ao final do ensino médio, que é um aluno bom academicamente, mas não é emocionalmente inteligente, então que tipo de cidadão a gente vai ter? A gente precisa ter os dois. Então imagina que a abordagem da escola seja o trilho de um trem: de um lado temos a parte acadêmica e de outro lado temos a parte emocional. Para o trem andar é preciso ter as duas partes equilibradas. Se uma das partes está quebrada, o trem vai descarrilhar. O mesmo acontece com as pessoas.

Quando a gente tem o foco só com a nota da prova, ou em quem o aluno é em detrimento da nota que ele recebe na prova, que tipo de sociedade a gente vai ter? Uma sociedade mais preocupada com resultados do que com o processo. Vamos pensar na pessoa como ela é como aluno, na escola: Como os professores entendem esse aluno? O ajudam a pensar? A explorar quem ele é? Quais são os talentos dele? Como eu posso contribuir na sala de aula, no laboratório de química? Eu não ter facilidade em determinada disciplina não significa que eu seja burro, significa que eu preciso de mais suporte.

Então a escola vem como uma solução para ajudar as pessoas a se entenderem como aprendizes. A única constância que temos é que tudo muda. A Pandemia veio comprovar isso. A gente tem que constantemente saber se adaptar. Se a gente não sabe quem a gente é como aprendiz, como a gente se adapta? A gente se engessa! Por exemplo, eu só sei fazer teste com lápis e papel. Hoje no on line tenho que demonstrar como aluno nos testes, a maneira que eu penso, a criatividade, a colaboração na sala de aula. Os alunos passam a trabalhar mais colaborativamente do que individualmente.

Trilho de um trem: de um lado temos a parte acadêmica e de outro lado temos a parte emocional. Para o trem andar é preciso ter as duas partes equilibradas. Se uma das partes está quebrada, o trem vai descarrilhar.

Cheiro de Mãe: Fale um pouco sobre as habilidades socioemocionais que a escola pode ajudar no desenvolvimento do aluno.

Fernanda Lee: Na Disciplina Positiva a gente fala dos 4 C´s – habilidades socioemocionais: os alunos que conseguirem pensar mais intencionalmente nestas 4 habilidades tem uma grande chave de acesso para muitos de seus talentos e também conseguem ter uma harmonia muito maior com a sociedade que é no sentido de: “Como eu posso contribuir”?

1. O primeiro é o C de Pensamento Crítico: ao conversar com o professor na sala de aula quando ele está explicando o conteúdo, eu como aluno não tenho que me ater a memorizar aquilo que está sendo dito, mas saber explicar de uma outra maneira, ver a aplicação daquele conceito. Por que eu preciso aprender a História Medieval ou a Tabela Periódica? Qual a relação desses conceitos no nosso mundo moderno? O que a história do passado pode nos ensinar sobre Resiliência? O que as lutas do passado podem nos ensinar sobre a Política? Como a gente pode evoluir de forma pacífica em sociedade, já que nós sabemos o que a guerra faz? Como conviver de forma pacifica onde várias ideias são representadas? Não existe uma verdade absoluta. Para isso é importante se ter Pensamento Crítico.

2. O segundo C é a Criatividade: Se a gente espera que os alunos aprendam e consigam absorver e se lembrar daquela informação específica, como podemos abrir espaço para eles mostrarem isso de uma forma criativa. Hoje temos vários aplicativos super intuitivos e super divertidos que podem fazer a gente ser sugado ou elevado. Na hora que eu me inspiro com um professor que faz um vídeo e usa no 6º ano um aplicativo para mostrar aos alunos como a terra se locomove, eu percebo que temos recursos criativos fartos.

3. O terceiro C é Colaboração: Colaborar significa fazer junto. Como abraçar a diversidade se pensamos diferente? Como demonstrar que as ideias do outro também são válidas? Como podemos usar os nossos pontos fortes juntos? Como podemos usar os nossos valores de vida? Como usar nossa perspectiva única de vida para fazer um projeto, um trabalho, juntos? A gente nem imagina que juntos podemos fazer melhor! Temos mais força!

4. O quarto C é imprescindível, a Comunicação: A gente pode ter tudo isso, mas se a gente não souber se comunicar com a gente mesmo – ouvir nossos pensamentos e souber colocá-los em palavras de maneira apropriada, então não tem sentido. Eu preciso entender os meus sentimentos, a necessidade da situação, qual o impacto daquilo que eu faço, o impacto das minhas atitudes dentro do ambiente on line ou off line, numa sala de aula. Qual o impacto que o professor tem? Ele consegue comunicar seus sentimentos dentro da sala de aula? Então a comunicação é fundamental porque quantas coisas são interpretadas de outras maneiras? Por exemplo: Fulano não me entende! Ela falou um negócio e eu fiquei super ofendido, então deixa!

Percebe-se que a pessoa não soube se comunicar. Então que tal chegar e dizer: “ Fulano, na última reunião você disse que o meu argumento não tinha nenhum sentido, eu me senti ofendida e eu gostaria de saber o que você estava pensando que fez você falar uma coisa dessa na frente de todo mundo”. Se a gente consegue falar tudo isso e se aproximar da pessoa com uma linguagem comunicativa de curiosidade, de abertura, de interesse e de foco em solução, talvez a pessoa tenha os motivos dela para se expressar assim e juntos podemos saber o porquê.

Cheiro de Mãe: O que o professor precisa fazer para que a Disciplina Positiva seja eficaz na sala de aula? Como a liderança é exercida dentro da sala de aula pelo professor através da Disciplina Positiva?

Fernanda Lee: A Disciplina Positiva é uma abordagem filosófica e prática. Não é o único programa socioemocional, existem outros programas socioemocionais. A Disciplina Positiva é um caminho e para que o professor aplique de forma eficaz, ele precisa entender os princípios que regem as ferramentas da disciplina positiva. Por isso a gente precisa entender filosoficamente, a gente precisa ganhar consciência do que é. Então antes da gente ensinar qualquer tipo de ferramenta, a gente precisa entender os princípios. Assim como qualquer profissão tem a sua ferramenta de trabalho, a Disciplina Positiva tem as suas e para qualquer trabalho que se vá fazer é preciso saber usar as ferramentas. As ferramentas podem ser aplicadas de forma mecânica, automática, robotizada, mas se a gente não internaliza, a gente não percebe que nós somos a ferramenta. O professor que se torna uma ferramenta é o professor-líder porque ele internalizou o conceito de ser firme e gentil e ainda é a autoridade dentro da sala de aula. A hierarquia ainda existe. Não é falta de hierarquia porque a gente trata as pessoas com dignidade e respeito. Os professores ainda são autoridade, só que a maneira como eles mostram a autoridade não é mais vertical - o professor no púlpito e o aluno sentado na cadeira enfileirada. Na Disciplina Positiva o modelo de educação é horizontal. O poder é compartilhado.

Qual o problema do modelo Vertical? Os alunos sempre estão em maioria em relação ao professor. O que acontece quando a maioria resolve se reunir contra a minoria - no caso numa escola a maioria são os alunos e a minoria são os professores – REBELDIA. E quando eles não expressam isso exteriorizando através da rebeldia, eles manifestam isso interiorizando os sentimentos e devolvendo isso em forma de saúde mental - ansiedade, depressão, suicídio, bullying, cyberbullying.

O que a gente pode fazer para que o aluno tenha prazer de ir à escola? Como fazer com que esse bimestre seja o bimestre mais prazeroso para se estar na escola, ainda que on line? Esse tipo de pergunta, de convite, ele vem de dentro para fora de um professor que acredita que estamos indo para o mesmo lugar. Ele sabe que os alunos precisam aprender, mas o “como” tem cooperação e criatividade. Por exemplo, apresente 3 elementos da tabela periódica em formato de Tik Tok. Dá mais trabalho? Sem dúvida que sim! Mas os alunos vão aprender mais porque vão ter prazer. O prazer libera no cérebro neurotransmissores de dopamina e ocitocina. São hormônios de felicidade, neurotransmissores que nos fazem sentir bem. Quando um aluno sente que é bom estar ali, na escola, na sala de aula, com aquele professor, ele se sente pertencente, ele já não quer perder a aula. Ele sente que faz parte daquilo, não é um mero receptor de conteúdo.

Então o professor precisa acreditar, e para acreditar ele precisa conhecer.

A Disciplina Positiva para dar certo, a gente precisa entender que é um caminho, uma filosofia prática (Filo = amor/ amigo + Sofia = conhecimento) não é só ter amor ao conhecimento, é ter paixão, é ter amor pela sabedoria. E a sabedoria vem de dentro para fora. É preciso entender que todos são tratados com dignidade e respeito, que a gente educa em longo prazo, que o professor é responsável por ajudar a criar uma visão compartilhada – O que acontece quando estamos todos juntos na mesma direção, compartilhando o poder? Temos uma sala de aula que se respeita.

Cheiro de Mãe: O que acontece com as crianças se as habilidades socioemocionais forem sobrepostas por um propósito mais acadêmico, conteudista e abordagens punitivas e de recompensas no processo de aprendizagem?

Fernanda Lee: Quando isso acontece somos treinados a sempre buscar na nossa vida, resultados externos. Eu só vou me sentir aluno do 2º ou 3º ano satisfeito comigo se eu entrar em um vestibular, se eu tiver uma boa nota.

Hoje em dia a gente sabe que existe vários tipos de cursos técnicos. A pessoa não precisa entrar no vestibular para ser bem-sucedida. Ela pode terminar o ensino médio e fazer um curso técnico, uma profissão e ser bem-sucedida, e também fazer uma faculdade e ser bem-sucedida. Ser um profissional técnico, fazer uma especialização. Não é desmerecer a Faculdade, eu super valorizo a educação. Acredito que quanto mais educação, mais conhecimento a gente tem, mais portas se abrem. No entanto, isso não define o ser humano. Ficar paralisado no conteúdo nos torna robotizados. A gente aprende a ser humano. A gente nasce e depois aprende a ser ser humano. Imagina um pai, uma mãe, um cuidador que pega um bebezinho e que oferece comida, fralda limpa, faz dormir, mas ele é cuidado por um robô, pelas partes técnicas. Esse bebê não vai aprender a ser humano. Sem pessoas adultas que têm uma noção das próprias emoções, sabe as suas dores, honra a própria história, tem uma história de resiliência, é isso que faz a gente ser humano. A vida é cheia de surpresas e quando acontece uma coisa boa, a gente quer compartilhar com alguém. A gente quer sentir, quer ser visto. A gente quer ser abraçado, e estar com pessoas que sentem junto conosco.

A gente quer pessoas que saem do ensino médio e da faculdade e encontrem na vida um equilíbrio. Daí não será mais o acadêmico, mas o salário que ele vai receber. E se o salário que ele receber não for o valor que ele quer ou não condiz com as notas que ele recebia, ele vai ser um ser humano indigno? Com autoestima baixa? Que tipo de cidadão vai caminhar nesse mundo? Temos a tendência de quando não nos sentirmos bem, a gente não se comportar bem. Não é só as crianças, os adultos também.


Cheiro de Mãe: Como o professor pode focar na solução de problemas ao invés de punir os alunos pelo mal comportamento? E de que forma a criação de soluções pelos próprios alunos é positiva para eles mesmos?

Fernanda Lee: A gente vem de um modelo de educação que vem de centenas de milhares de anos atrás e a Disciplina Positiva não é uma tendência de moda, ela na verdade é uma aplicação, uma abordagem que honra os direitos humanos. Quando o primeiro livro de Disciplina Positiva foi publicado pela Jane Nelsen na década de 80, ele foi baseado nos princípios filosóficos do Psiquiatra Alfred Adler, um humanista que há 100 anos já acreditava que todos os seres humanos têm direitos iguais à dignidade e ao respeito. E a partir do momento que eu como professora vejo que esse aluno não fez uma coisa apropriada e adequada dentro da escola eu vou punir porque isso me foi ensinado há muitos anos atrás. Ou eu como professora vejo que o aluno fez uma coisa boa, então eu o recompenso dando-lhe presentinhos, um adesivo, uma estrelinha, uma nota maior. Isso mantém a estrutura de poder no formato vertical onde temos alguém que sabe o que é bom e impõem tanto a recompensa quanto a punição. Isso não honra a dignidade.

O medo faz com que a gente iniba certos comportamentos para não sermos punidos. Ou para alguns alunos eles passam a pensar assim: “Já que eu sou mal, eu vou ser o terror”. Esse aluno está totalmente desencorajado. Uma criança que se comporta mal está desencorajada. E uma criança desencorajada precisa de encorajamento. E o professor espera que esse aluno saia do castigo dizendo: Professora, obrigada, eu vi todos os meus amigos brigando e eu percebi o que agora estou pronto para fazer a coisa certa! O que é a coisa certa? Eu não sei! Mas estou pronto para fazer! OU então ele vai se rebelar e dizer: Eu odeio essa professora! Porque ele teve a sua dignidade diminuída, roubada. E o que é a minha dignidade: é o meu direito de ser e viver. Eu como criança não sei ainda o meu direito. Então eles têm o direito deles tirado! Ele não tem palavras, porque não há negociação, o castigo é dado, imposto. Quando a gente odeia uma pessoa, a gente não sente vontade de agradar essa pessoa. Eu sinto raiva, eu sou rebelde, tenho baixa estima e me sinto uma pessoa má.

Ela perde a vontade de se arriscar, de fazer coisas novas. Uma criança não tem uma biblioteca de experiência de vida que um professor tem. Então ele passa a dissimular, fazer o errado quando o professor não está olhando. Ele tira o foco da parte acadêmica e super valoriza a parte socioemocional para ele poder sobreviver. Não tem um ser humano na face da terra que gosta de ter a sua dignidade roubada, que gosta de ser humilhado na frente de alguém.

Então ao invés de punição e de recompensa a gente sugere esse modelo: modelo horizontal de educação com encorajamento. E o encorajamento começa com o professor aprendendo uma linguagem nova. Quando o professor descreve para o aluno o que ele está vendo, por exemplo, “eu vi quando você escondeu o lápis do colega ou furou a fila” - ele ajuda o aluno a perceber que aquele comportamento não define o aluno. O comportamento faz parte do aluno naquele momento, mas ele não vai ser assim para sempre. Ele não vai ser um mentiroso, ele não vai ser um criminoso, ele pode até ser se for alimentado nele este combustível de pagar de volta. Mas se ele se sentir encorajado, isso não vai acontecer. Usar perguntar curiosas como: O que foi que aconteceu? Usar foco em solução é outra alternativa. Por exemplo, “ vem aqui... você, José e Maria, vamos conversar! O que aconteceu? Como podemos reparar esse erro”? O professor está lá como um guia para ajudar os alunos a pensar de forma crítica, criativa e através do exemplo dele ajuda os alunos a se comunicarem e a resolver o problema com cooperação. Ele evita que o problema aconteça novamente. Quando o professor é líder, ele ensina aos outros alunos a serem líderes também. Uma sala de aula de líderes é uma sala de aula gostosa de ficar.

Aos poucos, o professor vai saindo de cena porque os alunos são capazes de resolver suas próprias questões. Isso é a consistência na aplicação da Disciplina Positiva na sala de aula. Ensinar com consistência até a hora que o cérebro está maturado para entender. E quando ele entender, ele vai fazer. E quando ele fizer, ele precisa ser reconhecido: “João, eu percebi que você colaborou na resolução do conflito entre seus colegas, respirou fundo, recomeçou. Obrigada!” Isso é encorajamento – é o professor observar quando seus alunos estão desenvolvendo essas habilidades para a vida.

Encorajamento: É mais do que um adesivo, uma recompensa. É saber que você é visto, que é compreendido. E quando somos compreendidos, agimos com coragem. Por que quem na vida não erra? É nos erros e acertos que a gente acaba se transformando e vivendo a vida com coragem, com o coração e com cordialidade. E essas pessoas autênticas são os verdadeiros líderes. Pessoas que a gente se inspira, que a gente quer fazer igual, quer olhar e respeitar.

A Disciplina Positiva prevê uma relação horizontal entre professor e aluno - Imagem retirada https://educacao.estadao.com.br/


Cheiro de Mãe: Fale um pouquinho sobre as Reuniões de Classe: O que é, como funcionam, quais habilidades os alunos são capazes de desenvolver, quais os pontos positivos para a liderança do professor dentro da sala de aula, qual a eficiência e a eficácia dessa ferramenta?

Fernanda Lee: Os nativos sentavam em roda para resolver os problemas, e tem uma tribo na África que tem uma expressão que chama UBUNTU que significa sentar em roda e resolver as questões. Resolução não significa que eu vou ter a melhor resposta. Nós vamos resolver este problema juntos. Às vezes significa eu ser firme nos valores que eu acredito e abrir mão em certas coisas para que a gente possa chegar em um “MEIO A MEIO”. Não existe ser humano que viva na Terra sozinho. A gente nasce com um cérebro que é um órgão social independente da pessoa ser adulto ou criança. A gente precisa dos outros para a gente descobrir quem a gente é. UBUNTU significa: “Eu sou o que sou por causa do que somos juntos”. E quando a gente pensa em comunidade, a gente pensa no “eu”, interesses pessoais e ao mesmo tempo no “nós”, em quem nós somos no nosso interesse coletivo. E esse balanço de interesse pessoal e coletivo é que forma o contexto social. Por isso que colaboração é tão importante e comunicação também.

A reunião de classe é o momento que a gente senta em roda, e o professor nesse momento não é o líder da reunião. Ele é um dos participantes da reunião, sendo ainda o responsável pela segurança das crianças, em manter a ordem, mas também de participar junto com as soluções. Então é um processo, onde existe uma construção de soluções.

Existe uma pauta onde os alunos e o professor colocam os problemas coletivos. Por exemplo, “está difícil dar aula porque todos falam ao mesmo tempo. Ou, alguém pegou meu lápis. As coisas estão sendo roubadas dentro da sala”. O terceiro passo é escolher quem vai liderar a reunião, é importante ter uma rotação. Maria vai abrir a reunião. João vai tomar nota das soluções.

Tem o bastão da fala, assim como nas tribos, para ser passado um por um dando a vez para cada um se expor, ter seu direito de voz. E se eu não quiser falar eu posso simplesmente passar o bastão. Assim se chega em soluções razoáveis, respeitosas e relacionadas ao problema. E que seja também útil para que os alunos possam desenvolver habilidades que a gente quer para a vida.

Então se encerra a reunião. São em média 20 minutos. Pode ser 1 vez por semana ou 2, a critério do professor e sendo adaptada à idade das crianças. A partir dos 5 ou 6 anos de idade.

Faz-se uma poupança socioemocional. Ao invés de interromper a aula várias vezes todos os dias para resolver conflitos, tem-se uma pausa de 20 minutos uma vez por semana. Vai-se trabalhando a consistência e ensinando essa habilidade para os alunos que vão se fortalecendo até que surge o desafio e eles são capazes de solucionar por eles mesmos de forma respeitosa.

História do UBUNTU: Um cientista estava estudando os hábitos de uma tribo africana, e ele se viu rodeado por crianças todos os dias, e ele então resolveu brincar com elas. Ele comprou doces em um vilarejo próximo à tribo e os colocou numa cestinha decorada próximo a uma árvore e explicou a seguinte regra: 
- Vocês irão correr até a árvore e o primeiro que chegar até a cesta terá os doces só para si. 
As crianças então se alinharam para esperar o sinal do cientista (AGORA!!). Ele então disse: 
- 1, 2, 3, agora!
 As crianças deram-se as mãos e chegaram ao mesmo tempo ao pé da árvore e dividiram todos os doces entre elas. E o Antropologista então perguntou:
 - Por que vocês correram juntos ao invés de correrem separados e ficarem com os doces para si? 
E uma das crianças respondeu:
- UBUNTU! Como alguém pode estar feliz, quando todos os outros estão tristes?

Sobre a autora:

Bárbara Leite Liberato é casada com Fernando Liberato, mãe de duas crianças extraordinárias João Paulo, 6 anos e Gabriel, 3 anos. A vida toda quis ser mãe e formar uma família, casou com o grande amor da adolescência e juntos educam os filhos dentro da Parentalidade Positiva. Tem como missão de vida capacitar pais e mães para utilizarem as ferramentas da Disicplina Positiva e da Parentalidade Positiva junto aos filhos. Ler e escrever é uma paixão na vida.




Bárbara Leite Liberato

Educadora Parental em Disciplina Positiva

Membro da PDA / Brasil

Jornalista e Advogada

Certificada em Parentalidade Positiva pela Escola de Parentalidade e Educação Positivas de Portugal

Especializando em Neurociência e Comportamento - PUC/RS

Idealizadora e Editora do blog cheirodemae.com.br

(99) 981326509 - barbaraleiteliberato@hotmail.com

@barbaraleiteliberato


136 visualizações

Posts recentes

Ver tudo