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  • Barbara Leite Liberato

Chupeta: vilã ou aliada?

O assunto é polêmico! Baseado no senso comum, a chupeta tem sido utilizada para acalmar e nutrir o bebê. Um costume que é passado de geração em geração! Um dos pouco hábitos que fazem os pais não se importar tanto com a opinião dos profissionais!


A chupeta ou seus precursores foram empregados desde que o homem começou a buscar alternativas para resolver os problemas do seu cotidiano. Foram utilizadas tanto para acalmar quanto para nutrir. Embora a maioria dos profissionais, quando questionados a esse respeito, desaconselhem seu uso, as famílias frequentemente a oferecem a seus filhos com base no saber comum, passado de geração a geração, que afirma que a chupeta acalma a criança. Em geral, ela faz parte do enxoval do bebê e é comprada antes da criança nascer.

Trabalhos mostram que a prevalência de seu uso é alta já no primeiro mês de vida mesmo entre os bebês nascidos em Hospital Amigo da Criança, onde as mães são orientadas a não oferecê-la para evitar a confusão de bicos e o não estabelecimento da amamentação ou o desmame.

O assunto é polêmico, e as opiniões geralmente variam na dependência do que o profissional consultado (psicólogo, dentista, fonoaudiólogo, pediatra, otorrinolaringologista, infectologista) deseje privilegiar.


Pansy et al., avaliando 174 binômios (mães e filhos) austríacos através de um questionário semiestruturado, verificaram que 31% das mães tinham mudado de opinião quanto ao uso da chupeta até os bebês completarem 5 meses. Segundo os autores, logo após o nascimento, a maioria das mães (135/174) pretendia oferecer a chupeta aos filhos, e apenas 39 (das 174) não tinham essa intenção. A prevalência do uso de chupeta aos 5 meses era alta (111/143; 78%), sendo que 69% das vezes ela tinha sido introduzida na primeira semana de vida. Entre as mães que inicialmente pretendiam introduzi-la (115/143), 91 afirmaram que os filhos a estavam usando e 24 não, pois as crianças a tinham rejeitado (24/24). Das 28/143 mães que não pretendiam dar a chupeta, 20 mudaram de opinião, alegando que o tinham feito para acalmar a criança.

As crianças nascem com reflexos adaptativos (busca, sucção e deglutição) que as auxiliam a sobreviver. A sucção se inicia entre a 17ª e a 24ª semanas de vida intrauterina, por isso é possível observar bebês sugando os dedos ainda no ventre das mães. A sucção, utilizada pela criança para obter o alimento, promove a liberação de um hormônio chamado endorfina. Esse hormônio produz um efeito de modulação da dor, do humor e da ansiedade, provocando sensação de prazer e bem-estar ao bebê.

A amamentação em regime de livre demanda satisfaz tanto suas necessidades nutritivas quanto essa pulsão (busca de prazer). Por isso, é importante que durante a fase em que a criança esteja só mamando no peito, a mãe a amamente sempre que ela solicitar. Este reflexo, entretanto, começa a mudar nos primeiros meses de vida, transformando-se em um hábito; mesmo na ausência de fome, o bebê procura sugar, levando tudo o que lhe interessa à boca apenas em busca de satisfação emocional.


CURIOSIDADE SOBRE A CHUPETA


As chupetas modernas tiveram origem a partir dos mordedores oferecidos às crianças por ocasião da erupção dentária para confortá-las. Seu nome em inglês demonstra sua utilidade, já que pacifier vem de pacify, que significa "pacificar", "acalmar". Passou por diversas transformações e atualmente é apresentada em uma peça única que engloba o bico, anteparo para os lábios e uma porção esférica por onde pode ser segurada. A peça de forma arredondada que toca os lábios tomou "forma de rim", permitindo a liberação das narinas na porção superior.

Independentemente da área do especialista a ser consultado, seja ele o pediatra, odontologista, fonoaudiólogo, psicólogo e etc, há convergência na opinião de que a severidade dos efeitos nocivos está relacionada à duração (período de utilização), frequência (número de vezes por dia) e intensidade (duração de cada sucção e atividade dos músculos envolvidos) com que é usada.

A chupeta, quando usada de forma inadequada, tem impacto negativo sobre o desenvolvimento da fala, pois à medida que ocupa a cavidade oral, limita o balbucio, a imitação de sons e a emissão de palavras, levando a uma vocalização distorcida.

Ela promove alteração da movimentação da língua e da musculatura perioral, tornando-as flácidas, determinando repouso incorreto do órgão, dificultando a deglutição e, posteriormente, também a mastigação. Aparecem os problemas de oclusão dentária e respiração bucal, e a língua anteriorizada durante a deglutição promove a protrusão dos dentes. A chupeta age na boca como uma força não intencional que pode produzir e/ou acentuar a má oclusão dentária por alterar o tônus muscular peri e intraoral.

Assim, pode postergar a total erupção dos incisivos (mordida aberta), forçando também sua protrusão, e estreitar o arco superior, aumentando a atividade muscular sobre os caninos e a diminuindo sobre os molares, o que determina a mordida cruzada posterior. Estudos têm indicado que a severidade da mordida aberta está relacionada com o tempo de uso da chupeta.


É importante que os pais sejam capazes de suportar a angústia que causa o choro da criança e de dar um tempo para compreender/descobrir qual o incômodo e/ou a necessidade da criança que causou o choro. No entanto, é comum oferecer chupeta ao bebê tão logo ele comece a resmungar ou na presença de algum fator que entendemos como desconfortável a ele.

Na maioria das crianças, o hábito costuma se descontinuar por volta dos 3 ou 4 anos, e o contato entre os incisivos superiores e inferiores se restabelece. Já quando a criança não o abandona, seu efeito sobre a dentição permanente torna-se significante. O uso do bico ortodôntico com intuito de minimizar os efeitos deletérios sobre a mordida não resolvem 100% o problema. Algumas crianças usam a chupeta de modo atípico, prejudicando ainda mais a dentição, pois, além de aberta, a mordida fica assimétrica.

Se a opção for por oferecer chupeta à criança, recomenda-se que o seu uso seja limitado até 1 ano de idade e sua introdução deve ocorrer após a amamentação estar estabelecida, ou seja, com o bebê mamando bem, ganhando peso por mais de duas semanas e a mãe sem fissuras ou dores no momento de amamentar. Para aqueles que optarem por oferecer a chupeta, uma opção é restringir o seu uso em momentos críticos e, uma vez estabelecido o hábito de usar a chupeta, procurar suporte profissional para a retirada, se este for o desejo. Por fim, é importante ressaltar que o uso de chupeta por crianças que já adquiriram a fala, muitas vezes em idades avançadas como 7, 8 e até mesmo 10 anos, é um sinal de alerta. Os pais precisam refletir sobre o que se passa emocionalmente com elas e qual a função psíquica da chupeta na vida dessas crianças. Cientes do motivo, poderão oferecer a elas uma conduta afetiva que possa ajudá-las na elaboração do problema e, assim, a chupeta poderá ser abandonada.



Referências
·       Uso de chupeta: história e visão multidisciplinar - Silvia Diez Castilho; Marco Antônio Mendes Rocha. https://doi.org/10.1590/S0021-75572009000600003. Artigos de Revisão • J. Pediatr. (Rio J.) 85 (6) • Dez 2009
·       https://www.sbp.com.br/especiais/pediatria-para-familias/cuidados-com-o-bebe/uso-de-chupeta-os-pros-e-os-contras/ 
·       Valdrighi HC, Vedovello Filho M, Coser RM, de Paula DB, Rezende SE. Hábitos deletérios x aleitamento materno (sucção digital ou chupeta). RGO. 2004;52:237-9.
·       Pansy J, Zotter H, Sauseng W, Schneuber S, Lang U, Kerbl R. Pacifier use: what makes mothers change their mind? Acta Paediatr. 2008;97:968-71.
·       Victora CG, Behague DP, Barros FC, Olinto MT, Weiderpass E. Pacifier use and short breastfeeding duration: cause, consequence, or coincidence? Pediatrics. 1997;99:445-53.

Sobre a autora:

Olá, é um prazer conhecer vocês que frequentam esse blog! Um lugar de escuta, de fala e principalmente de compartilhamento. Vejo aqui um espaço em que poderemos compartilhar muito mais do que os desafios das relações entre pais e filhos, mas principalmente as experiências e as motivações que encontramos no dia a dia de cada família. Sou médica, pediatra, e espero enriquecer esse espaço através de orientações e discussões norteadas pelo conhecimento médico.


Dra. Raquel Carvalho Leite

Médica formada na Universidade Federal de Minas Gerais. Pediatra pelo programa de Residência Médica do Hospital das Clínicas da UFMG. Titulada em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Especialização em Terapia Intensiva Pediátrica e Neonatal pelo Neocenter e Titulada em Terapia Intensiva Pediátrica pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira.

@quelcleite

e-mail rcl134@yahoo.com.br


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