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  • Barbara Leite Liberato

Birras: o que eu não consigo enxergar?


Existe muito mais coisa por trás da birra de uma criança do que nós, os adultos, podemos imaginar. Como direcionar o querer e as vontades dos pequenos de forma saudável?



Frases como estas: “Meu bebê não para de me chutar quando estou vestindo a roupa nele”; “Meu filho não quer comer”; “Ele está me desafiando”; “Minha filha se recusa a sentar na cadeirinha do carro e a ficar com o cinto de segurança”; “Essa criança vive a me manipular”, são muito comuns. E nestas horas, mães e pais não sabem o que fazer, irritam-se, perdem a conexão com as crianças, gritam, e muitas vezes, arrependem-se das ações que tomam.

As crianças ainda não possuem um cérebro capaz de desafiar ou manipular os pais, isto porque o neo-córtex ainda não está plenamente desenvolvido. O que caracteriza esse comportamento desafiador que nomeamos de birra, nada mais é do que uma inquietação com algo que não vai bem internamente, uma resposta emocional a alguma frustração, ou ainda uma manifestação de vontade, um tanto exagerada da criança.

Birra é uma forma de comunicação. Os pequenos comunicam-se de forma limitada, não sabem gerir as próprias emoções e, por vezes, há um somatório dessa combinação com uma frustração. O resultado pode ser mesmo caótico. Porém, se levarmos em conta o que a criança está querendo dizer com aquele comportamento desafiador, qual a necessidade dela que não está sendo priorizada ou se tem algo naquele ambiente fazendo com que ela se sinta mal, o resultado dessa equação pode ser gerido de forma mais leve com a ajuda do adulto responsável.

Por exemplo, ajuda pensar nas necessidades fisiológicas – a criança está com fome? Ela está com sono? Cansada? Doente? Tomou vacina? Está com dor? Ajuda também entender o que está por trás do comportamento – A criança acabou de ganhar um irmão? Mudou de escola? Mudou de casa ou de cidade? Os pais estão doentes? Estão viajando? Contribui observar o ambiente também – Está muito calor? Ou muito frio? O lugar traz segurança para a criança? As pessoas que estão com ela a fazem se sentir bem?

Enfim, por trás de um mau comportamento tem uma necessidade que não está sendo atendida: depois de comer, dormir e descansar uma criança fica bem mais humorada e feliz em cooperar com o adulto. Ao saber que ela é amada e importante mesmo depois da chegada de um irmão, a criança sente-se mais segura no ir e vir do adulto. Uma vez que a necessidade é atendida, a birra tende a desaparecer, dando lugar ao equilíbrio, à conexão e ao acolhimento.

Adultos sabem falar, possuem todos os recursos de uma boa comunicação, têm vocabulário vasto e dominam também a linguagem não-verbal. Para além disso, possuem o neo-córtex cerebral totalmente desenvolvido, sabem autorregular-se e também nomear todos os sentimentos, e ainda assim, costumam fazer birras: “Estou esperando você me pedir desculpas”; “Já tem três dias que a gente não conversa”; “Nunca mais eu falo com você”.

Sendo assim, qual é a lógica de se irritar tanto com as birras dos pequenos?

Tente pensar com a cabeça de uma criança de 2 a 7 anos, ou com o cérebro ainda imaturo de um pré-adolescente e um adolescente. Faça esse exercício e talvez consiga perceber que todas essas birras são normais, e todas elas são uma oportunidade de se educar – ensinar sobre emoções, a corrigir erros, a repensar soluções, a crescer de forma saudável desenvolvendo habilidades que serão levadas adiante pela vida. ´

Se as birras são consequências das limitações que as crianças possuem, logo, o primeiro passo será ampliar esse cardápio de comportamentos. Como? Valide os sentimentos da criança e permita que ela sinta aquilo que a incomoda. Escute o que ela tem a dizer. Atenda a necessidade se ela for fisiológica ou emocional. Caso contrário, mude o foco. Retire a criança do ambiente que a está incomodando ou fazendo com que ela se frustre. Seja firme sem ser agressivo. Enquanto os pequenos instalam o caos, os adultos instalam o controle. Mães e pais não precisam aumentar o espetáculo. Por fim, fale para a criança o que você quer que ela faça, ela irá entender.

A forma como o adulto responde ao comportamento da criança faz toda diferença no tempo que os pequenos gastam para sair do caos ou permanecer nele. Elas podem insistir no mau comportamento ou aprender a fazer diferente na próxima frustração. Porque as birras, estas não deixarão de acontecer, nem mesmo na vida adulta.



Sobre a autora:

Bárbara Leite Liberato é casada com Fernando Liberato, mãe de duas crianças extraordinárias João Paulo, 5 anos e Gabriel, 2 anos. A vida toda quis ser mãe e formar uma família, casou com o grande amor da adolescência e juntos educam os filhos dentro da Parentalidade Positiva. Tem como missão de vida capacitar pais e mães para utilizarem as ferramentas da Disicplina Positiva e da Parentalidade Positiva junto aos filhos. Ler e escrever é uma paixão na vida.



Bárbara Leite Liberato

Educadora Parental em Disciplina Positiva

Membro da PDA / Brasil

Jornalista e Advogada

Especilista em Parentalidade Positiva pela Escola de Parentalidade e Educação Positivas de Portugal

Especializando em Neurociência e Comportamento - PUC/RS

Idealizadora e Editora do blog cheirodemae.com.br

(99) 981326509 - barbaraleiteliberato@hotmail.com

@barbaraleiteliberato

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