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  • Barbara Leite Liberato

Alimentação Complementar e o Desenvolvimento Neuropsicomotor

A adequada introdução dos novos alimentos no primeiro ano de vida, com uma correta socialização alimentar, a partir deste período, bem como a disponibilização de variados alimentos saudáveis em ambiente alimentar agradável, permite à criança iniciar a aquisição das preferências alimentares responsáveis pela determinação do seu padrão de consumo futuramente.

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A qualidade e as práticas alimentares adequadas nos primeiros anos de vida influenciam positivamente as condições de saúde do indivíduo a curto e longo prazo. É na infância que ocorre a formação de muitos dos hábitos alimentares que se estenderão ao longo da vida. Para que a alimentação seja adequada, os alimentos consumidos precisam atender às necessidades diárias específicas de cada faixa-etária em relação à energia, macro e micronutrientes.

A literatura sobre nutrição infantil evidencia que o comportamento alimentar infantil é determinado num primeiro momento pela família, da qual ela é dependente e, secundariamente, pelas outras interações psicossociais e culturais da criança. Os pais e cuidadores exercem papel fundamental no desenvolvimento dos hábitos alimentares dos seus filhos durante a infância por serem responsáveis pelas compras de determinados alimentos e pela exposição das crianças a eles.

A adequada introdução dos novos alimentos no primeiro ano de vida, com uma correta socialização alimentar, a partir deste período, bem como a disponibilização de variados alimentos saudáveis em ambiente alimentar agradável, permite à criança iniciar a aquisição das preferências alimentares responsáveis pela determinação do seu padrão de consumo futuramente.

Crianças aceitam melhor um alimento novo quando esse é oferecido e consumido por outra pessoa, mais do que quando é somente oferecido. A alimentação apropriada na infância requer também cuidados relacionados aos aspectos sensoriais (apresentação visual, cores, formatos atrativos), na forma de preparo dos alimentos (temperos suaves, preparações simples e alimentos básicos), porções adequadas à capacidade gástrica, e ao ambiente onde serão realizadas as refeições. Esses fatores devem ser sempre considerados, visando à satisfação de necessidades não só nutricionais da criança, mas também emocionais e sociais.

A dinâmica alimentar tem uma repercussão positiva quando as refeições são feitas em casa e em família, por constituírem oportunidade de socialização, difusão de costumes e hábitos saudáveis, além de promoverem a comunicação, o convívio e os laços familiares (Fulkerson & Neumark-Sztainer, 2006; Neumark-Sztainer et al., 2000; Unicef, 2010).

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A introdução alimentar infantil é uma fase caracterizada pela transição do leite exclusivo – materno ou fórmula láctea – para os primeiros alimentos sólidos, semi-sólidos ou líquidos, em alimentação complementar. Segundo a OMS, o período de alimentação complementar é aquele durante o qual outros alimentos ou líquidos são oferecidos à criança além do leite materno (Silva, 2013; OMS, 2003). A Sociedade Brasileira de Pediatria, em seu Manual de Orientação do Departamento de Nutrologia (2012), afirma que deve ser iniciada a partir do sexto mês de vida.

Ao completar seis meses de vida, grande parte dos lactentes saudáveis já apresentam a capacidade para sentar sem apoio, sustentar a cabeça e o tronco, segurar objetos com as mãos, e explorar estímulos ambientais. Outras aquisições são o desenvolvimento oral, o desaparecimento do reflexo de protrusão, e o aparecimento dos movimentos voluntários e independentes da língua, fazendo com que o alimento role na boca e a criança o mastigue. Estes são os aspectos motores que indicam que se pode iniciar a introdução de outros alimentos, denominada alimentação complementar (AC). Entender os sinais de maturidade do lactente para introdução de alimentos sólidos é fundamental para uma alimentação complementar com sucesso”

Mas por que aos 6 meses de vida?

Ao completar seis meses de vida, grande parte dos lactentes saudáveis já apresentam a capacidade para sentar sem apoio, sustentar a cabeça e o tronco, segurar objetos com as mãos, e explorar estímulos ambientais. Outras aquisições são o desenvolvimento oral, o desaparecimento do reflexo de protrusão, e o aparecimento dos movimentos voluntários e independentes da língua, fazendo com que o alimento role na boca e a criança o mastigue. Estes são os aspectos motores que indicam que se pode iniciar a introdução de outros alimentos, denominada alimentação complementar (AC).

A figura abaixo ilustra como algumas características do desenvolvimento dos lactentes estão relacionadas aos comportamentos alimentares. Figura 3 – Alimentação do lactente e das crianças no decorrer do crescimento e desenvolvimento.

Neste contexto a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) tem orientações publicadas no Manual de Orientação do Departamento de Nutrologia, contendo informações abrangentes sobre o processo de início da AC, tanto do ponto de vista nutricional como comportamental:

  • A evolução da consistência deve ser gradual: oferecidos inicialmente em forma de papas;

  • Todos os grupos alimentares devem ser oferecidos a partir da primeira papa principal;

  • A refeição deve ser amassada, sem peneirar ou liquidificar;

  • O ritmo da criança deve ser respeitado, de acordo com o desenvolvimento neuropsicomotor;

  • Recomenda-se o uso do nome papa principal e não papa salgada.

Além desta recomendação, o Ministério da Saúde (MS) publicou a segunda edição do Guia Alimentar para crianças menores de dois anos que também destaca os seguintes tópicos:

  • A consistência dos alimentos complementares deve ser oferecida de forma crescente: pastosa, papa e purê;

  • A partir de 8 meses a criança pode receber os alimentos da família amassados, triturados, desfiados ou cortados em pequenos pedaços;

  • A alimentação complementar complementa o leite materno e não o substitui;

  • Deve-se incentivar a criança a comer nos horários de refeições da família;

  • Atenção especial às práticas comportamentais, posturais e ambientais.

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A maior preocupação no período de introdução alimentar são os engasgos. Para se evitar tais quadros é importante que os alimentos sejam cortados ou passem por processos de amaciamento (vapor ou cozimento) adequados antes de serem ofertados para a criança. Alimentos devem sempre ter cortes de bastões ou palitos que facilitem o manuseio pela criança. É extremamente arriscado oferecer alimentos pequenos, redondos ou ovais, como uvas inteiras, ovos de codorna, tomatinhos, cerejas, jabuticabas, azeitonas, entre outros. Quaisquer alimentos nesses formatos devem ser cortados longitudinalmente em duas ou quatro partes. Cortes transversais não são indicados.

Fique sempre atento ao bebê enquanto ele se alimenta e lembre-se que as ânsias são comuns nessa transição. A ânsia do bebê é uma reação reflexa normal para um bebê aprender a comer, chamada de Reflexo de GAG. Este reflexo acontece quando a comida se move para a parte de trás da boca e o bebê tosse, balbucia, abre a boca e traz a comida para a frente novamente (Brown, 2017).

Em adultos, o Reflexo de GAG é ativado perto da parte traseira da língua, em direção à garganta, para que ele aconteça. Entretanto, esse reflexo é ativado mais adiante na língua de um bebê de aproximadamente 6 meses de idade, o que significa que, além de ele ser ativado mais fácil em um bebê do que em um adulto, ele está mais distante das vias aéreas. O Reflexo de GAG é geralmente barulhento e após o episódio a criança tende a continuar a comer normalmente.




Referências Bibliográficas:


1. Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola/Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento de Nutrologia, 3ª. ed. Rio de Janeiro, RJ: SBP, 2012.

2. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos: um guia para o profi ssional da saúde na atenção básica. 2ª. ed, Ministério da Saúde, Brasília, 2013.

3. WHO. Global Consultation on Complementary Feeding. Guiding Principles for Complementary Feeding of the Breastfeed. December 10-3, 2001.



Sobre a autora:

Olá, é um prazer conhecer vocês que frequentam esse blog! Um lugar de escuta, de fala e principalmente de compartilhamento. Vejo aqui um espaço em que poderemos compartilhar muito mais do que os desafios das relações entre pais e filhos, mas principalmente as experiências e as motivações que encontramos no dia a dia de cada família. Sou médica, pediatra, e espero enriquecer esse espaço através de orientações e discussões norteadas pelo conhecimento médico.


Dra. Raquel Carvalho Leite

Médica formada na Universidade Federal de Minas Gerais. Pediatra pelo programa de Residência Médica do Hospital das Clínicas da UFMG. Titulada em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Especialização em Terapia Intensiva Pediátrica e Neonatal pelo Neocenter e Titulada em Terapia Intensiva Pediátrica pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira.

@quelcleite

e-mail rcl134@yahoo.com.br

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